Por Larissa Gemaque*
Uma pesquisa desenvolvida na Faculdade Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), tem utilizado insumos amazônicos como principal fonte de matéria-prima para a produção de um sabonete sensorial voltado a neurodivergentes, especificamente crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Produzido no laboratório de farmacotécnica da FCF-Ufam, pela acadêmica Sayra Martins, estudante do 5º período de Farmácia, sob coordenação da professora Dra. Éllen Paes, o sabonete é resultado de estudo que tem investigado o potencial desses recursos naturais na formulação do produto.

Diferentes dos sabonetes convencionais, a proposta do sabonete sensorial é de um produto de higiene formulado para estimular diferentes sentidos durante o banho, como tato, olfato e visão. Sua composição pode incluir variações de textura, fragrâncias e elementos visuais que ampliam a experiência do uso.
No contexto amazônico, pesquisas científicas têm examinado a aplicação de insumos regionais na formulação de outros sabonetes sensoriais. Entre os materiais estudados estão óleos vegetais, manteigas e extratos de plantas.
O projeto em andamento na Ufam também busca desenvolver um sabonete sensorial adaptado para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Esse público pode apresentar alterações no processamento sensorial, como hipersensibilidade, que corresponde a uma reação intensa a estímulos táteis, olfativos ou visuais, e hipossensibilidade, caracterizada por uma resposta reduzida ou ausência de percepção diante desses mesmos estímulos.
Essas condições podem dificultar atividades cotidianas, como o banho, o que pode tornar o uso de produtos convencionais inadequado por causar desconforto.
“Então, o que pontuamos bastante foi essa questão de sensibilidade que eles têm ao toque. Aqueles sabonetes com formatos retangulares ou redondos. Com isso nós pensamos em uma maneira de trazer uma sensibilidade tátil maior. E o fato de que os sabonetes eles têm um cheiro muito forte. Por exemplo de rosa, lavanda, erva doce. E aquilo normalmente afeta pessoas neurodivergentes. Então, pensamos em trazer também um sabonete que tenha um cheiro suave e que esse cheiro suave também proporcione efeitos calmantes”, disse Sayra Martins.
A pesquisa também propõe a formulação de um sabonete que incorpore aspectos controlados de textura, aroma e cor. A proposta é que o produto contribua para a adesão ao banho, transformando-o em uma prática de higiene associada a estímulo e interação.
Sayra Martins explicou que após investigar componentes da qualidade de vida de pessoas neurodivergentes, a motivação para desenvolver um produto voltado a esse público nasce da sensibilidade do olhar científico. Segundo ela, muitos itens de higiene pessoal disponíveis no mercado não levam em consideração as alterações no processamento sensorial.
“Sensibilidade do olhar porque tem muitos produtos de higiene pessoal que não levam em consideração esses fatores. Então, o nosso projeto busca exatamente trazer esse sabonete sensorial para que essas particularidades sejam respeitadas”, declarou a estudante.
Integração entre ciência e tradição na aplicação de insumos amazônicos
Projetos que envolvem o estudo de insumos amazônicos têm ganhado destaque nos últimos anos, com aumento significativo na produção científica.
Para essa pesquisa, os insumos utilizados são o capim-santo (Cymbopogon citratus) e a erva-cidreira (Melissa officinalis). A escolha dessas plantas amazônicas se fundamenta no conhecimento tradicional compartilhado por Sayra Martins. Segundo ela, o uso dessas ervas está associado às suas propriedades calmantes e a resultados de pesquisas anteriores que reforçam seu potencial terapêutico e aromático. Confira no vídeo:
A iniciativa reforça a importância de unir saberes locais às pesquisas laboratoriais. Também evidencia como a biodiversidade da Amazônia pode abrir caminhos para novas soluções em saúde e bem-estar.
Etapas de desenvolvimento do sabonete sensorial
O processo de formulação do sabonete sensorial começa com a colheita das ervas na horta da Universidade Federal do Amazonas. Após a coleta, capim-santo e erva-cidreira passam por etapas de limpeza, seleção e lavagem para garantir a qualidade da matéria-prima.
Em seguida, as plantas são levadas a estufa uma temperatura média de 45°C, por um período de 4-5 dias, para secagem e posteriormente trituradas em liquidificador e pesados em uma balança analítica, o que facilita a extração dos compostos ativos.
Na fase seguinte, ocorre a hidrodestilação: as ervas trituradas são fervidas junto à água, liberando óleos essenciais que constituem o núcleo funcional do sabonete. Esses óleos são incorporados a uma base glicerinada e moldados em formas específicas. O diferencial da pesquisa está na criatividade dos formatos como corações, flores e até massinhas de modelar, que tornam o produto lúdico e atrativo.

O sabonete desenvolvido pela pesquisa passará por fases de experimentação antes de ser apresentado oficialmente. Esse processo é fundamental para validar a eficácia, a segurança e o caráter sensorial do produto para garantir que os óleos essenciais estejam em equilíbrio com a base glicerinada.
A previsão é que o material seja apresentado no Congresso Nacional de Iniciação Científica (CONIC) em 2026, na Ufam. A participação nesse evento reforça o caráter científico da iniciativa e abre espaço para que a pesquisa seja discutida em âmbito nacional.
*Repórter do Portal da Ciência sob a supervisão do Prof. Me. Gabriel Ferreira



