Por Allan Rodrigues*
Não se invade uma universidade como quem ocupa um território inimigo. Quem já viveu de verdade o cotidiano da Universidade Federal do Amazonas sabe reconhecer imediatamente a diferença entre quem chega para dialogar e quem chega para tensionar. Eu sei porque vivi — e vivo — esse espaço. Fui estudante da Ufam, formei-me em seus corredores, e hoje sou professor da mesma instituição. É desse lugar, de dentro, que falo.
O episódio recente envolvendo a presença de um vereador no campus, acompanhado de um grupo de jovens e marcado por confronto e intimidação, não pode ser tratado como algo trivial. Para quem conhece a universidade por dentro, fica evidente quando há disposição para o diálogo — e quando há, ao contrário, uma tentativa de impor posições pela força simbólica do cargo ou pela provocação.
A universidade pública nunca foi, nem deve ser, um espaço de silêncio ou de unanimidade. Desde os meus tempos de estudante na Ufam, aprendi que o dissenso é parte essencial da formação acadêmica. Hoje, como professor, continuo estimulando esse mesmo espírito crítico em sala de aula. Testemunhei debates intensos, divergências profundas e embates ideológicos que, longe de enfraquecer a universidade, a fortalecem. É assim que o conhecimento avança e que cidadãos são formados com autonomia de pensamento.
O que não é aceitável — e isso afirmo com a experiência de quem já esteve dos dois lados da sala de aula — são atitudes que tentam constranger, intimidar ou deslegitimar esse ambiente. Quando um agente público entra em um campus não para dialogar, mas para confrontar de maneira agressiva, ele não está exercendo fiscalização legítima. Está desrespeitando a autonomia universitária e os princípios básicos que sustentam a vida acadêmica.
Cabe ainda problematizar um ponto essencial: não se constrói qualquer tipo de fiscalização responsável sem conhecimento prévio da instituição. Não há histórico de presença ou diálogo contínuo desse vereador com a Ufam no sentido de compreender suas demandas ou buscar formas legítimas de contribuir com a universidade. Além disso, é preciso lembrar o óbvio jurídico e administrativo: a Ufam é uma instituição federal, mantida com recursos da União, e não há ali execução de orçamento municipal que justifique uma ação fiscalizatória típica de um vereador. Trata-se, portanto, de uma área fora da sua esfera direta de competência, o que torna ainda mais questionável a natureza da intervenção realizada.
Isso me leva, inevitavelmente, a refletir sobre o papel de um vereador. Como professor da Ufam e como cidadão de Manaus, acompanho de perto os problemas que afetam nossa cidade. O transporte público é precário e insuficiente para a população. O trânsito é cada vez mais caótico. Em períodos de chuva, bairros inteiros sofrem com alagamentos. A atenção básica de saúde enfrenta dificuldades, e as desigualdades sociais seguem marcando profundamente o cotidiano urbano. Soma-se a isso a urgência de políticas ambientais responsáveis em uma região estratégica como a Amazônia.
Diante desse cenário, é difícil compreender por que um parlamentar opta por investir seu tempo em ações que pouco dialogam com essas demandas reais. A atuação política deveria estar voltada à construção de soluções concretas, e não à promoção de conflitos que geram visibilidade momentânea, mas não deixam nenhum legado para a população.
Na Ufam, aprendi — ainda como estudante — que o espaço legítimo para o confronto de ideias é o debate qualificado. E hoje, como professor, reafirmo isso todos os dias: quando há discordância, o caminho é o argumento, é a escuta, é o diálogo. É no auditório, na sala de aula, nos grupos de pesquisa. Não é na intimidação, não é no gesto autoritário, não é na tentativa de constranger quem pensa diferente.
Defender a universidade pública é, portanto, defender um espaço onde todas as ideias podem circular — desde que respeitem os princípios da convivência democrática. A Ufam, que me formou e que hoje me permite formar outros, é um exemplo vivo disso. Ela não é um espaço de privilégios, como muitos tentam fazer parecer, mas um patrimônio coletivo construído com esforço público e compromisso social.
E sua importância vai muito além dos muros do campus. A Ufam é peça fundamental no desenvolvimento da Amazônia e do Brasil. É nela que se formam profissionais que atuam em áreas estratégicas; é nela que se produz conhecimento essencial para compreender e enfrentar os desafios da região; e é por meio da extensão que esse saber alcança a sociedade, dialogando diretamente com as necessidades das comunidades. Ensino, pesquisa e extensão, nesse contexto, não são apenas funções institucionais — são instrumentos concretos de transformação social.
Por tudo isso, a defesa da universidade pública não pode ser uma posição isolada ou circunstancial. Trata-se de um compromisso coletivo. Proteger instituições como a Ufam, garantir sua autonomia e preservar seu papel como espaço de livre pensamento e debate é uma responsabilidade de todos aqueles que compreendem o valor da democracia e do desenvolvimento social. Defender a universidade é, em última instância, defender o futuro.
*Jornalista, escritor, professor do Curso de Jornalismo da FIC/UFAM, mestre doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia, Líder do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Cultura e Amazônia (Trokano) e presidente da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (ABEJ).




