CRÔNICAS DO COTIDIANO: O problema é outro

Por Walmir de Albuquerque Barbosa*

Os problemas são muitos, diversos e de difícil resolução, mas têm tamanho, densidade e dinâmicas diferentes, espalhados por todo o país, envolvendo o seu povo, sua vida concreta e suas instituições. Vencemos uma eleição derrotando o medo e um projeto de poder multifacetado, apresentado aos incautos, sob o lema fascista de “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, escondendo, assim, seus verdadeiros objetivos. Esse “Deus” entrou na estória para ungir os sem vergonhas, os bandidos da mercancia da Fé, os fundamentalistas da “Teologia do Domínio” e do “Ilusionismo Bíblico da Prosperidade”. A Pátria apareceu como um elemento agregador, remetendo-nos a essa paixão desmedida pelos feitos militares que desenharam e consolidaram o território nas lutas contra nós mesmos (povos originários, escravizados, “deserdados da terra” e trabalhadores subsumidos na mais valia dos patrões), contradição em termos, por garantir  o poder a uns poucos. A Família entrou como farsa dos depravados e enredados em bacanais diversos, que não podiam se apresentar com a sua verdadeira qualificação cafajeste, como sendo um aglomerado de interesses  de milicianos mafiosos (La Famiglia), capachos, criminosos de escol, agregados ilustres, e outros, todos apresentados à sociedade como defensores da moral e dos bons costumes, exemplo de “Homens e Mulheres de Bem”. Escorados em Dinheiro Público, Dinheiro Sujo Privado, Dinheiro Sujo dos Interesses Externos, apropriaram-se das novas mídias e conquistaram uma multidão.

Não foi, apenas, uma luta da Esquerda contra a Direita em busca do voto e do poder. A tal Polarização da Sociedade sempre foi uma farsa muito cara ao projeto dos manipuladores de opinião. Só uma  sociedade de imbecis se parte em bandas iguais brigando pelos mesmos interesses.  E por não sermos uma nação de imbecis foi possível uma virada, uma tomada de consciência. E foi uma virada porque os vencidos formam um ecossistema político sólido, que se alimenta e se fortalece do contingente difuso do povo, daqueles que foram ficando à  margem das lutas sociais travadas para a conquista de direitos, por falta de consciência política, por falta de escolaridade, de condição econômicas de vida, por conveniências, por convicção, ou por vários outros sentimentos que se queira mencionar. São numerosos e não foram vencidos em definitivo. Vão conviver no espaço político como oposição, exercendo o livre direito de espernear, de divergir, próprio do sistema democrático. Depois da derrota, exercerão esses direitos,  sem os subterfúgios que lhes são caros. Estes foram desvendados e expostos em praça pública e, uma vez revelados, perderam o encanto.

O Projeto Fascista foi derrotado, mas os problemas do país são de responsabilidade de todos. Entretanto, falsas percepções podem obnubilar nossas convicções de vitória. O maior problema não é o Sistema Judiciário, incluído aí o STF, a ser tratado nos termos da lei. Não é a organização política, desenhada para agasalhar os poderes incumbentes. Não é a falta de massa crítica para fazer frente aos desafios da pós-modernidade, basta trazer nossos gênios de volta e multiplicar outros que esperam por oportunidades. O problema maior  é a Elite Brasileira: ela é estamental, estrutural e estruturante; alimenta-se da miséria dos outros; comanda o  país como se fosse o seu “navio negreiro”, herdeira que é dos Traficantes de Escravos, que, em troca de favores do Rei, forjaram o  sistema financeiro nacional e, por baixo das vestes nobres e títulos da dívida pública, moldaram o destino e a consciência de classe do estamento; herdeira, também, dos Latifundiários e Genocidas Bandeirantes, guarda e nutre ódio feroz contra os despossuídos, presente no estamento do Agro. Essa Elite não desiste do mando e está, como sempre esteve, envolvida: com o Projeto Fascista Derrotado; com as falsas promessas de Liberdade do Liberalismo Econômico; na captura da mídia; na captura das instituições reguladoras do mercado e das finanças, incluindo o Banco Central; na captura dos Cursos de Economia, transformados em madraças dos  interesses da  “Faria Lima”; na distribuição de doces na boca dos comentaristas econômicos para dar-lhes crédito e matar a Economia Política. Agora, Ela quer ditar o projeto, os rumos e os nomes dos que vão gerir o Sistema Econômico da Nação, o tamanho e os usos do Estado em seu proveito. E isto é inaceitável!

*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.