Por Larissa Gemaque e Mayson Nogueira*
O coração da floresta amazônica abriga uma diversidade de espécies de animais que utilizam as árvores como casa para abrigar a sua família, e os frutos e insetos como seu alimento e sobrevivência na natureza. Entre a variedade de animais que habitam na região, existem os primatas, um grupo de mamíferos que englobam os macacos, lêmures e os seres humanos. Dentro dessa grande família, da linhagem dos macacos, existe a espécie saguinus bicolor, popularmente conhecida como sauim-de-coleira, um pequeno primata que resiste para sobreviver à extinção de sua existência.
Há mais de 20 anos, o pequeno macaco de pelagem branca e preta sofre com a degradação ambiental de áreas verdes que são consideradas suas “casas”, ou seja, a derrubada de árvores pelo ser humano. Além desse fator, o avanço urbano desordenado de Manaus, corrobora para asfixiar o sauim-de-coleira, isso significa que ao mesmo tempo que o desmatamento avança de um lado e o crescimento da cidade do outro, a vida do símbolo da capital do Amazonas é colocada em risco.
O animal é prensado pelo desmatamento e o crescimento da cidade e no ponto de vista genético, essas questões podem afetar gravemente a forma como o saguinus bicolor pode se reproduzir, conseguir alimento e moradia segura. Esses elementos colaboraram para a espécie ser classificada como criticamente em perigo pelo Instituto Chico Mendes para a Biodiversidade (ICMBio), em 2014 e na Lista Vermelha da IUCN em 2018 e isso configurou o animal entre os 25 primatas mais ameaçados do mundo.
Para Cristiane Soares, doutoranda e pesquisadora em genética populacional do Sauim-de-Coleira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a situação da espécie nesse cenário pode influenciar na forma de sobrevivência em contexto urbano e como eles estão se adaptando para sobreviver.
“Apesar do desafio que é viver na cidade, parece que eles estão, de alguma forma, se ajustando para sobreviver nesse ambiente. Também é importante realizar, um trabalho que estamos fazendo, uma análise da diversidade genética e também observar a matriz urbana como barreira para a espécie, uma resistência negativa. Além disso, tem-se uma competição com outra espécie e faz empurrar o animal para dentro da cidade e como o sauim estaria respondendo essas mudanças”, pontuou a pesquisadora.

Pesquisadora do Projeto Sauim de Coleira, da Ufam, Cristiane Soares explicando sobre os processos genéticos da espécie. Foto: Mayson Nogueira
Apesar de esforços incansáveis para conseguir manter a população da espécie viva, que é endêmica na Região Metropolitana de Manaus, ou seja, vive somente nesta região da Amazônia, ainda persistem outras adversidades que, para além do desmatamento e avanço do concreto, sufocam o primata com competição de outras espécies, perda de áreas de conservação e falta de políticas públicas eficientes para preservação do sauim-de-coleira no Amazonas.
A disputa por espaço com o “mão-dourada”
Os saguinus bicolor vivem em fragmentos florestais específicos da cidade de Manaus, como a reserva florestal da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), no Instituto Nacional de Pesquisa na Amazônia (INPA), no Parque do Mindú, localizado no bairro Parque 10 de Novembro, na zona centro-sul, e no Parque Sumaúma, zona Norte da capital, e entre outras localidades em busca de alimento e abrigo para se proteger, bem como nas áreas mais densas de floresta fora do ambiente urbano.

Floresta da Ufam vista do alto, abrigando mais de 700 hectares de mata nativa. Foto: Divulgação/Ufam
O sauim-de-coleira costuma andar em grupos, como se fossem uma grande família, entre 3 a 12 indivíduos, sendo estes machos, fêmeas e uma fêmea alfa, sendo esta a responsável por gerar novos integrantes. Com isso, a reprodução da espécie é garantida para gerar novos membros deste grupo.
Não muito distante da capital, nas áreas mais densas de floresta, existe uma outra espécie de saguinus, nomeada como Saguinus midas, conhecido como “sagui-de-mãos-douradas”, o animal reside nas florestas da BR-174, na divisa entre os estados do Amazonas (AM) e Roraima (RR).

Sagui-de-mão-dourada presente em um galho de árvore na floresta, principal espécie concorrete ao sauim-de-coleira. Foto: Silvana Santos/INaturalist
Nesta mesma região residem indivíduos do Saguinus bicolor, o que provoca disputas por território, alimento e cruzamento genético, sendo este o principal causador de um processo denominado de hibridização, que é o cruzamento entre espécies ou populações distintas, o que resulta em seres híbridos, ou seja, um indivíduo novo pode conter partes do corpo do sauim-de-coleira e do sagui-de-mão-dourada.
Esse processo híbrido de reprodução entre o “mão-dourada” e o sauim-de-coleira representa um aspecto negativo para a espécie, visto que o Saguinus midas se sobressai em relação ao Saguinus bicolor, com características que prevalecem da espécie dominante na espécie dominada. A atual situação pode comprometer a manutenção de características genéticas do próprio sauim-de-coleira, que já enfrenta ameaças relacionadas a perda de habitat e crescimento urbano.
Para Marcelo Gordo, professor e coordenador do Projeto Sauim de Coleira, da Ufam, a hibridização do sauim significa uma introgressão genética, ou seja, ocorre a incorporação do material genético do sauim-de-mão-dourada com o sauim-de-coleira, sendo uma ação inédita que ocorre de forma natural. Logo, não há controle para frear o avanço desse processo.
“A área de contato entre os bichos que nós estamos estudando é a que eles estão hibridizando, ou seja, estão cruzando entre eles e gerando indivíduos fora do padrão. De cor e tudo. Só que com o tempo esses indivíduos híbridos começam a reproduzir também. Então provavelmente eles vão ficando tudo com a aparência do midas. Então o midas está entrando pra cima da distribuição do sauim-de-coleira e reproduzindo com eles. “Isso é uma coisa boa ou uma coisa ruim?” Muito ruim. A gente registrou seres híbridos em áreas de floresta primária contínua, não tem interferência humana nenhuma. Então isso daí é um processo que está acontecendo naturalmente. Isso é uma novidade. É uma coisa que não tem muito o que a gente fazer, porque é natural”, explicou o pesquisador.

Professor Marcelo Gordo, coordenador do Projeto Sauim de Coleira, da Ufam, em entrevista ao Portal da Ciência. Foto: Mayson Nogueira
A pesquisadora Cristiane Soares também pontuou que esse avanço do Saguinus midas sobre o Saguinus bicolor pode prejudicar na variabilidade genética do primata, onde pode trazer malefícios na hora de sua reprodução, bem como só a presença de uma fêmea alfa para reprodução.
“A gente tá tentando filtrar isso para poder entender, porque o que nós sabemos atualmente é que existe uma fêmea alfa que é a líder e que só ela reproduz. O que ela faz? Ela inibe as outras de reproduzir. A gente não sabe como, acredita-se que é alguma coisa hormonal; Se uma área é muito perturbada, tem muita borda, a riqueza de recursos que eles poderiam ter seria reduzido, o que pode afetar na reprodutibilidade dos indivíduos, além dessa hibridização do sauim que compromete a espécie endêmica”, destacou Cristiane.
O cenário do processo de hibridização entre as duas espécies de sauim é um cenário inédito e um desafio complexo para os pesquisadores do primata, visto que ocorre de forma natural na floresta amazônica.
Além da ameaça causada pela fragmentação de florestas e expansão urbana, o cruzamento entre as espécies podem provocar adversidades que, a longo prazo, suas variabilidades genéticas e manutenção de características podem sofrer mudanças drásticas por causa do fator dominante do Saguinus midas, ao ponto de ocorrer hibridização e existir mais animais híbridos do que seres originais, sejam do sauim-de-coleira ou sagui-de-mão-dourada.
A sobrevivência na cidade

Imagem áerea da capital amazonense vista a partir do Mirante Lúcia Almeida. Ao fundo, a intensa urbanização da cidade. Foto: Emanuelle Baires/Manauscult
Manaus ocupa atualmente o sexto lugar no ranking de cidades brasileiras que mais cresceu em área urbanizada, tem aproximadamente 287,18km² de mancha urbana, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) coletados entre 2019 e 2022.
Os efeitos desse avanço dos humanos sobre a floresta provoca uma série de mudanças ambientais, que afeta a fauna e a flora da região, dessa forma, os animais precisam fugir para outros habitats ou se “acomodar” no concreto, como faz o sauim-de-coleira na capital amazonense.
O fator da derrubada de florestas para a construção de empreendimentos ao redor da capital também é outra adversidade enfrentada pelo primata. As áreas verdes de Manaus, onde o geralmente vive o sauim, despencou de 28% em 2003 para apenas 22% em 2022, segundo o último levantamento realizado pelo IBGE.
Isso significa que o desmatamento, ao longo de quase 20 anos, aumentou consideravelmente, ocasionado pela expansão da mancha urbana da capital alinhada ao crescimento de empreendimentos que colaboram para a derrubada das árvores nativas da Amazônia, que funcionam como as casas das famílias do Sauim.
Para Cristiane, a questão da derrubada da floresta e isolamento de fragmentos verdes pode afetar o indivíduo em si e compromete a reprodução e a linha genética dos seres.
“O sauim é um animal que necessita essencialmente de floresta para sobreviver. Utiliza para se locomover e se alimentar. Então essa queda florestal pode refletir no tamanho corporal, podem ser que fiquem mais fracos ou mais fortes por causa da alimentação. Além disso, eles são formados por grupos familiares e existe toda uma dinâmica entre eles e ao se separarem, podem ser que eles não se reproduzam entre si, mas com os próprios membros do grupo, o que pode afetar na genética dos animais”, pontua a pesquisadora.
A arborização na capital do Amazonas também é outro empecilho grave que contribui para que o Sauim seja atropelado na tentativa de atravessar entre as áreas verdes nas principais avenidas da cidade, visto que o animal utiliza a copa das árvores para se locomover em diversas localidades, o que contribui para a diminuição da quantidade de indivíduos da espécie.
O último Censo do IBGE indica dados pouco animadores, onde apenas 44,8% da área urbana de Manaus possui algum tipo de cobertura arbórea. O dado indica que menos da metade da população manauara vive em ruas provindas de arborização, o que evidencia um péssimo planejamento urbano por parte do poder público perante ao ajuste de sobrevivência do sauim no ambiente urbano.

Bairro de Manaus com baixa cobertura árborea em suas ruas e grande presença do asfalto e concreto. Foto: G1 Amazonas
Na maior cidade da Amazônia, existem três principais fragmentos verdes localizados dentro da mancha urbana onde é possível ver o sauim-de-coleira. Entre esses locais, está o Parque Estadual Sumaúma, localizado no bairro Cidade Nova, na zona Norte de Manaus.
A área é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral no estado, criada através do decreto n° 23.721 de 5 de setembro de 2003 com 53 hectares. É considerada a primeira Unidade de Conservação Estadual de Manaus, onde um grande fragmento verde é preservado diante do desmatamento para as fundações de empreendimentos, ali ainda resistem indivíduos do sauim-de-coleira.

Um dos principais atrativos é uma árvore Sumaúma, de cerca de 40 metros, que dá nome ao parque. Foto: Luis Paulo Dutra/Rede Amazônica
Segundo Augusto Leite, presidente do Instituto Sumaúma, anos atrás era grande a quantidade de animais do sauim que circulavam nessa área verde, e destacou que ocorria interações rápidas com os visitantes do parque. Porém, atualmente, há poucos indivíduos e eles estão escondidos. Confira no vídeo abaixo.
O isolamento desses fragmentos florestais se mostra um grande obstáculo para a circulação das famílias de sauim-de-coleira, sejam machos, fêmeas e filhotes. Para Marcelo Gordo, esse isolamento pode comprometer em diversos aspectos a sobrevivência da espécie, desde alimentação até a sua variabilidade genética.
Para o professor e coordenador do Projeto Sauim de Coleira, da Ufam, a ação de replantio de mudas de árvores nativas da região amazônica é um fator importante para garantir a sobrevivência dos indivíduos que dependem da copa das árvores para se locomover em segurança diante do imprensamento da espécie.
“À medida que a gente foi conhecendo a espécie do Saguinus bicolor melhor, descobrimos várias coisas através da pesquisa, começamos a implementar ações de conservação. Entre essas ações, a que nós mais atuamos é o reflorestamento, a recuperação de áreas degradadas e o plantio de árvores de espécies nativas da região em diversos lugares, com o objetivo de enriquecer a vegetação e permitir que o sauim volte a habitar essa região”, destacou Marcelo Gordo.
De acordo com os dados mais recentes disponibilizados pela Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), foram plantadas pouco mais de 24 mil mudas entre janeiro e abril de 2026, com teto de meta para alcançar 40 mil plantios. Apesar do avanço, ainda persistem deficiências na cobertura arbórea da cidade e a falta de preservação e conservação das árvores existentes, visto que para alcançar uma altura ideal e copa robusta demora meses.
Para o projeto desenvolvido por Marcelo Gordo, a ação de plantio de mudas nativas da Amazônia representa a chance de recuperar áreas degradadas para garantir a sobrevivência da espécie.
“Então tem lugares que a gente viu que a mata está detonada, meio degradada e a gente enriquece com espécies nativas que podem ser interessante ao sauim, para conseguir abrigo e alimento para sua sobrevivência, e para formar corredores ecológicos para eles transitarem entre as árvores”, enfatizou o professor sobre as ações do Projeto Sauim de Coleira.

Mudas de árvores em viveiro da Ufam destinadas ao plantio em áreas degradadas. Foto: Mayson Nogueira
A sobrevivência do primata depende não apenas da preservação dos fragmentos florestais existentes, mas também da reconexão desses espaços por meio de corredores ecológicos, com a união das copa das árvores.
Medidas para ajudar o Sauim e saberes à população
A população total estimada de Saguinus bicolor em toda a região amazônica é entre 30 mil a 46 mil indivíduos, sendo um pouco mais de 20 mil adultos da espécie, segundo dados do ICMBio. Em Manaus, a população estimada varia entre mil a 1,5 mil seres somados àqueles que vivem dentro do ambiente urbano quanto aos arredores da cidade.
Os números indicam a baixa presença do primata na vida terrestre, em decorrência de ameaças que provocam as suas mortes. Com isso, algumas medidas importantes foram tomadas para garantir a manutenção da espécie, criação de novos filhotes, a circulação dos indivíduos e também a preservação de seu habitat.
Para evitar que os números cheguem à níveis extremos, medidas para frear a queda foram tomadas por ações de pesquisadores e da sociedade, como plantio de mudas e construção de passarelas.
Ao redor de Manaus existem projetos, ações e institutos que tem por objetivo realizar as ações de cuidado com o sauim-de-coleira e possibilitar a realização de pesquisas para compreensão do animal e também aproximar a população do primata que é endêmico na região e símbolo da capital amazonense.
Um dos projetos pioneiros que existem na cidade é o Projeto Sauim de Coleira, localizado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Sob a coordenação do professor Marcelo Gordo, o projeto iniciado em 2002 desenvolve pesquisas científicas, ações de plantio para restauração de área verde que visa a preservação do sauim-de-coleira e construção de passarelas para permitir o trânsito do animal.

Sede do Projeto Sauim de Coleira, no setor sul da Universidade Federal do Amazonas. Foto: Mayson Nogueira
“O objetivo principal aqui é de levantar pesquisas que ajudem na conservação da espécie que realizamos e publicamos. Além disso, fazemos atividades de plantio de mudas nativas da região amazônica para recuperar áreas degradadas para formar corredores ecológicos. E por fim, montamos aqui passarelas com cabos de aço para que o sauim possa atravessar as ruas com segurança, com foco na diminuição do número de atropelamentos”, destacou Gordo sobre as atividades do projeto.

Instalação de passarela para passagem do sauim-de-coleira em área verde de Manaus. Foto: Duda Menegassi/O Eco
O professor explicou que as primeiras passarelas foram instaladas em Manaus antes mesmo do Projeto Sauim de Coleira existir, sendo implementadas dentro do campus da Ufam como “equipamentos-teste” para saber como o animal se comportaria.
“As primeiras passarelas que foram feitas aqui na cidade datam do ano 2000 e foram feitas aqui dentro do campus. Demoraram muito para usar porque foi mal feita e instalada, visto que a conexão dela estava acima da copa das árvores, e com isso o bicho precisava subir no poste e usar a passarela. Mas com o tempo as árvores cresceram e alcançaram a passarela, daí os animais começaram a usar com mais frequência. Não só o sauim, mas outros animais pequenos também”, comentou Gordo.
Apesar desta estratégia contribuir para a diminuição de atropelamentos do Sauim no ambiente urbano, não existem dados concretos que consolidam uma porcentagem exata de redução desses acidentes após a implementação das passarelas.

Materiais para a montagem das passarelas, entre elas as telas de ferro para sustentar peso. Foto: Mayson Nogueira
Além do Projeto Sauim de Coleira, existem outros duas ações essenciais para permitir acesa a chama do conhecimento sobre o animal para a população. Entre eles estão o Instituto Sumaúma e o Projeto Primatas.
O Projeto Primatas é uma organização acadêmica de pesquisa, ensino e extensão da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), criado em 2017 que desenvolve as atividades são voltadas para o incentivo a educação ambiental e busca promover a conservação da biodiversidade amazônica, com foco nos primatas não humanos por meio do ensino lúdico com jogos educacionais e tecnológicos na sociedade, especificamente o público estudantil. O projeto é coordenado pela professora Luciane Souza.
Para a coordenadora do Projeto Primatas, as atividades permitem maior acesso à população para conhecer mais sobre o sauim-de-coleira, compreender sua importância ao ecossistema da Amazônia e também desmistificar questões relacionadas ao animal.

Professora Luciane Souza concedendo entrevista ao Portal da Ciência. Foto: Larissa Gemaque
Segundo Augusto Leite, presidente do Instituto Sumaúma, a criação do Parque Sumaúma em 2003 e a implementação do Instituto foram pontos-chave para a conservação da floresta e proteção de diversos animais que vivem no fragmento florestal, entre eles o sauim-de-coleira, como símbolo de resistência ao crescimento da cidade, e a manutenção de pesquisas e conhecimento para a população.
“O Instituto é uma organização que foi criada após a conquista desse território da cidade, o Parque Sumaúma. Acredito que é somos a única organização social da sociedade civil que tem como tema a pauta de proteção dos fragmentos florestais urbanos. Entendemos que a Amazônia não é só os barrancos, beiradas dos rios, aqui é floresta também e estamos há mais de 15 anos nessa empreitada”, enfatizou Augusto.

Augusto Leite, presidente do Instituto Sumaúma, concedendo entrevista para o Portal da Ciência. Foto: Mayson Nogueira
Em uma cidade marcada pela expansão urbana, preservar os fragmentos florestais e ampliar o conhecimento sobre a espécie, além de conscientizar a população são medidas fundamentais para garantir a sobrevivência do primata em seu próprio território.
“Caímos na reflexão de o quanto a sociedade de Manaus conhece sobre o sauim de coleira, quantas pessoas sabem sobre o macaco. A gente já levou o projeto para as escolas, de ensino fundamental e médio, e aí percebemos que poucas pessoas conheciam o sauim. Surgimos com essa finalidade”, destacou Luciane sobre o Projeto Primatas da UEA.
Políticas públicas para a preservação e conservação da espécie
A deficiência de ações por parte do poder público de Manaus, seja prefeitura ou governo do estado, colaboram para acelerar o processo de extinção do sauim-de-coleira. Apesar de existir políticas públicas, ainda são poucos os resultados para frear a diminuição de mortes dos animais da espécie.
Atualmente, as principais diretrizes políticas públicas estruturadas para proteger a espécie envolvem:
- O Plano de Ação Nacional (PAN) para o Sauim-de-Coleira, com a proposta de criação de Unidade de Conservação visando a proteção do animal;
- Criação de uma Área de Proteção Ambiental (APA) Sauim-de-Manaus, estabelecida em 2018 que conecta um mosaico de áreas verdes;
- Implementação de Educação Ambiental nas escolas, com projetos pedagógicos apoiados pelo Instituto Sauim-de-Coleira;
Para Augusto Leite, essas medidas ajudam a cuidar da espécie em âmbito institucional, porém ainda faltam políticas adequadas voltadas à população, principalmente acerca do conhecimento.
“Na realidade, deveria ter uma política adequada para Manaus. Uma política ambiental, porém que não se resume só a floresta. Algo mais específico, como uma política florestal urbana. Também deveria-se fazer campanhas para ajudar a população no incentivo de mudas em seus quintais”, disse Augusto.
Para Marcelo Gordo, a falta de fiscalização nos momentos de desmatamento e a pouca ação do Código Florestal e ações das leis para derrubada de florestas e aberturas de fazendas ao redor de Manaus podem comprometer a garantia de sobrevivência do sauim-de-coleira e evitar desmatamento
“O executivo também deve baixar decretos, portarias. O pessoal da fiscalização deve começar a impor regras. Se você tem leis que respaldam algumas políticas públicas, aí a coisa funciona. Ou vai na força, com a lei ou política pública”, explicou o pesquisador.
Para Luciane Souza, o plantio de mudas é uma medida importante para garantir a continuídade da espécie do sauim-de-coleira em contexto urbano manauara, além de como ajudar a cuidar dos animais e ações de enfrentamento para não impedir o avanço do sequestro do sauim da natureza.
A existência de instrumentos voltados à preservação e conservação do sauim, a efetividade dessas medidas dependem de fiscalização, da continuidade de suas ações e articulação entre o poder público e as instituições. Enquanto a expansão urbana e a degradação dos fragmentos florestais persistirem, a proteção da espécie exigirá políticas ambientais mais rigorosas e específicas, capazes de alinhar o crescimento de Manaus com a preservação de seu habitat natural.

Cada vez menos áreas verdes na cidade, o sauim-de-coleira utiliza os telhados de residências para garantir sua sobrevivência e buscar abrigo e alimento. Foto: Diego Lagroteria/O Eco
Proteger o sauim-de-coleira significa também repensar a relação de Manaus com a floresta que a cerca. Além de apenas cuidar dos indivíduos que representam a identidade da capital amazonense, é importante reconhecer que a sobrevivência da espécie depende das escolhas feitas pela sociedade e, sobretudo, da responsabilidade do poder público com a conservação ambiental.
Além do mais, o futuro do primata, que é considerado difícil para pesquisadores, também revela o quanto a sociedade manauara está disposta a preservar a natureza que faz parte de sua história, para garantir que a família de sauim sobreviva diante do crescimento urbano, da hibridização e do desmatamento, sendo além de símbolo local, referência nacional em ser resistentes até o sangue.
*Repórteres do Portal da Ciência sob a supervisão do Prof. Me. Gabriel Ferreira
Foto: Ricardo Oliveira/Revista Cenarium

