Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
“A mentira não está no discurso, está nas coisas” é o que nos diz Ítalo Calvino em “As cidades invisíveis”(São Paulo: Companhia das Letras, 1990), ao referir-se às cidades e seus símbolos. Os discursos são a expressão pura e simples dos nossos sentimentos de momento, das nossas percepções apressadas, das observações distorcidas do real, das nossas crenças e ideologias, das nossas vontades de poder, da nossa capacidade em esconder a verdade e fraudar o real ou da nossa sapiência adquirida. Entre as formas de discurso, o discurso da matemática, a ciência dos números, das medidas exatas, dos cálculos exaustivos para revelar resultados, quantidades e dimensões é sempre tratado como o discurso lógico e verdadeiro, que se esgota em si mesmo e, livre de qualquer suspeita, é o que pensamos! No entanto, Fernando Pessoa, no Fragmento n. 369, do “Livro do Desassossego”, mostra-nos uma outra perspectiva do discurso matemático: “aceito que um grande matemático some dois e dois para dar cinco: é um ato de distração, e a todos nós pode suceder. O que não aceito é que não saiba o que é somar, ou como se soma. É este o caso dos mestres do oculto, na sua formidável maioria” (São Paulo: Todavia, 2023, p.424). Portanto, todos os discursos, como abstração do real, estão sujeitos às contingências. Desde a terça-feira, na ONU, trava-se uma batalha discursiva, infelizmente, com muitos discursos de baixo nível, beirando o surreal, tendo como campeões, o do Presidente dos EUA, o da Presidente Interina da Venezuela e o do Presidente da Argentina, dentre os que assisti. Todos expressaram coisas estranhas e (tão) absurdas ao não guardarem nexos com a realidade. Embora distantes, nos tocam, nos incomodam ou amedrontam e surtem, em parte, o efeito desejado. Não que seus autores não saibam somar, mas porque escondem as coisas. Tramam em silêncio para construir ou alimentar teorias conspiratórias. Outro caso, pertinho de nós, é o discurso matemático das Pesquisas de Opinião, que pululam nos meios de Comunicação nesse período de eleição. As pesquisas parecem verdadeiras como discursos estatísticos, mas a verdade não está nelas, está nas coisas que não dizem e as veremos um dia!
Pesquisas Eleitorais custam caro: feitas por partidos políticos, seus resultados servem para orientar suas estratégias de campanha; feitas por consórcio de empresas de comunicação, são dadas a público para orientar seus discursos jornalísticos no momento da captura dos resultados com uma certa independência opinativa ou direcionamento editorial; pagas por organizações do mercado ou associações de interesse privado, disseminam, pelos veículos de comunicação a elas associados, a sua ideologia ou os interesses econômicos imediatos de quem paga ou, ainda, as duas coisas juntas, para influenciar o eleitorado que precisa decidir ou direcionar o seu voto, parte do marketing político-empresarial. Essa última modalidade tem prevalecido sobre as demais na formação da opinião pública e se constituído numa soma de dois e dois são cinco, não como erro, mas como forma discursiva de esconder a verdade das coisas, embaralhar o jogo e obter resultados.
E que coisas escondem? E que coisas verdadeiras deixam de ser perguntadas, avaliadas e apresentadas? Serão os mestres do oculto atuando? Estamos a dez dias do Primeiro Turno das Eleições sem que tenhamos conhecimento exaustivo das propostas para formar convicções, porque se optou pela difusão em massa de “pesquisas de alfaiate” para dissuadir, manipular ou convencer a opinião pública na mídia convencional, enquanto se fortalece uma guerra de fura-bolhas na internet e nas redes sociais, seguindo o faro dos algoritmos. É uma guerra discursiva que servirá, apenas, para confirmar a estratégia inicial no atual processo político brasileiro do “país dividido”. Se assim fosse, por que se briga tanto pelos indecisos, pelos que tendem ao voto nulo? A verdade está nas coisas e essas coisas não foram suficientemente elucidadas. Estão aparecendo a conta-gotas e caindo fora de lugar; conduzidas pela procrastinação para os desvãos das coisas duvidosas; têm o propósito de facilitar os julgamentos apressados e os interesses escondidos dos setores dominantes da nossa sociedade, para quem o retrocesso do fascismo é mais cômodo que quaisquer propostas progressistas que se nos apresentem. As “coisas” estão aí, vê-las-emos como são à luz do dia!
*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.

