CRÔNICAS DO COTIDIANO: Êta Brasilzão Complicado

Por Walmir de Albuquerque Barbosa*

Há precedentes: no final do século XIX e início do século XX, quando o Brasil ainda se chamava “Estados Unidos do Brazil”, nas refregas entre Brasil e Bolívia pelas terras do Acre, devido à ingerências do Bolivian Syndicate (consórcio formado com capital norte americano e inglês para  apropriar-se da Borracha, conhecida como “ouro branco”), Don Luiz Gálvez Rodrigues de Arias, arrivista espanhol, se autoproclamou Imperador do Acre. O episódio foi retratado por Márcio Souza, no premiado romance, exemplo da literatura fantástica brasileira, intitulado “Galvez, Imperador do Acre”. O Brasil é incomparável: “até cafetão tem ciúmes”, dizia Tim Maia, coisas do folclore político que não nos permite negar as bizarrices que acontecem nesse país e que nos intrigam:  o candidato a Presidente da República que recebeu 60 milhões de votos em eleições limpas, reconhecidas por  observadores estrangeiros, perde a eleição, foge do país para livrar-se de investigações sobre crimes a ele imputados e, ao chegar no seu “duvidoso abrigo americano”, arvora-se em perseguido político e autointitula-se “Presidente da República Eleito”, numa eleição que ele considera “fraudada”, na qual, apenas ele, por vontade do povo, não fora eleito, mesmo com toda a liberdade para fazer sua campanha nos meios de comunicação, com inserções diárias obrigatórias em todas as redes de Rádio, TVs e Redes Sociais da Internet, pagas pelo Estado.

Mas, as coisas não ficam por aí: o “Tal Mercado” ou mais precisamente a “Tal Faria Lima”, proclamado o resultado das urnas, vem a público com notas contundentes exigir, por todos os meios que financia, que o Governo Eleito se renda a seus caprichos e confesse que vai fazer a vontade dos financistas, incorporando, imediatamente, sob pena de retaliação, o “Tal Corte de Gastos” e só aceitará um nome escolhido por eles para dirigir a Economia, com “carta branca”. Não é só um ato de arrogância, é a conivência descarada com um golpe em marcha, que apenas muda de estratégia. Quem perdeu a eleição vai para casa e volta na eleição seguinte. Os defensores do projeto econômico perdedor, da mesma forma, não têm o direito moral, jurídico e político para insistir no que o povo recusou. Não podem afrontar a Constituição, que expressa no seu art. 1º, parágrafo único: “Todo Poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos diretamente, nos termos desta Constituição”. É simples assim! O Eleito elegeu, também, as linhas mestras de seu Programa de Governo e, nos termos da mesma Constituição, discuti-lo-á com os outros representantes do povo a sua aplicabilidade. E o que for aceito merece respeito e acatamento.

O Projeto Econômico aprovado pelo povo não contempla as vontades malévolas que sacrificarão as conquistas sociais, as políticas públicas compensatórias. Da mesma forma, assegura que não será irresponsável com o controle das receitas e despesas da União, porém anda por outros caminhos que não são aqueles que favorecem, apenas, aos rentistas gananciosos e que não vai dar calote em ninguém, mesmo sabendo que a dívida pública brasileira sempre exigiu uma auditagem severa para confirmar seu montante e sua “verdade”. O Governo Eleito sabe, ainda, que a dívida pública é alta, mas é feita com entes do mercado interno e perfeitamente sustentável, sem colocar em risco a “segurança jurídica” de investidores. O terrorismo feito pelo mercado ultrapassa os limites do bom senso: comentaristas cínicos e de má fé apontam as suas trombetas apocalípticas por toda a mídia comprometida com as ideias conspiratórias dos grupos econômicos para obstaculizar a execução das medidas necessárias, mas que não lhes agrada. Essa narrativa perversa cai nos ouvidos de largas camadas da nossa sociedade e se junta aos interesses da “matilha” que aposta na desgraça, no empobrecimento, no impedimento de ascensão social, com o fito de locupletar-se com os salários baixos, com os privilégios, com a ostentação ridícula que os torna gloriosos diante dos tolos. Por fim, não se pode suprimir o debate democrático, mesmo com os derrotados e as minorias, assim como não se pode pactuar com a mentira, a covardia fujona e o golpismo! “O Brasil não é para principiantes”, dizia o Maestro Antônio Carlos Jobim, e quando nos esforçamos para compreendê-lo, aprendemos que a desfaçatez tem lado e não merece o nosso apreço!

*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.