Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
Tudo pode ser relativo quando se trata do período eleitoral. Tem gente que leva muito a sério os atos de canalhice explícita, as caneladas fenomenais dos Partidos Políticos, os sincericídios de candidatos incultos, as burrices crônicas de candidatos sem rumo, autoconfiança dos noviços, que se acham eleitos antes da hora, as tiradas sarcásticas de candidatos que nos levam ao riso. Adoro ouvir os “podres dos candidatos”; deles ficamos sabendo tantas coisas, verdade ou não, como dizem alguns, são “as entranhas dos poderosos”; divirto-me no balanço que faço ao fim do dia, metodicamente, colocando cada coisa nos baldes que tenho em casa: o balde da maldade, o balde da “verdade inventada” (fake) e o balde do relativismo, isto é, o que é ou não é ou não pode ser, mas poderia ter sido, embora sirva para entender que nem sempre a vida e o universo cabem num risco horizontal entre dois pontos. Tudo merece consideração! Tudo que aprendemos com os contos de fada, as novelas exageradas de nossos dramaturgos, muitos dos quais, bebendo nas tiradas shakespearianas que, incorporadas aos textos que se dizem novos, não passam de inspirações capengas diante do gênio, sobretudo quando querem reviver tradições amorosas mescladas com o poder ou, simplesmente, tratar dos poderes exóticos e das prepotências iníquas. No entanto, William Shakespeare continua sendo indispensável para entender a alma e o cerne do poder; e a relatividade das convicções humanas fantasiadas de várias coisas: religião, economia, política, tradição, tráfico de poder, amor, ódio e cultura. Apesar de tudo isso, somos, apenas, humanos!
E para que serve essa reflexão tão exaustiva, se vale tão pouco para o momento político? Com a Redemocratização, retomamos as eleições diretas e os demiurgos do fascismo, instruídos nos manuais de Joseph Goebbels (1897-1945), foram substituídos pelos Marqueteiros Políticos e, assim como os técnicos de futebol, conhecíamos as suas performances. Hoje, os demiurgos voltaram como avatares nas redes sociais, elucubrações cerebrais de algoritmos, que entopem as nossas mentes com mensagens, memes e tantas coisas mais sem localizador de origem, embora aqui e acolá, sejam encontradas “fazendas de bots” a serviço das mídias milicianas que jogam tudo para as nuvens e nos atingem na palma da mão e na ponta dos dedos, quando rolamos as telas dos celulares.
A invencionice é grande. Primeiro, cravaram a tese do País Polarizado, uma simplificação tola para esconder a falta de um projeto de país que não seja o de sempre: o dos que mandam e o país dos que obedecem. Na impossibilidade de emplacar essa visão bestial, veio o Etarismo, depois o mote da Catástrofe: o país está quebrado; qualquer um vai enfrentar o desastre da Dívida Pública; o povo pobre está viciado em políticas compensatórias e recusa a “servidão voluntária”, mas não há lugar para todos nos andares de cima; o povo precisa ser conduzido para não se perder nos desvãos da devassidão. Vendo que isso não cola, apelaram para o viralatismo e a subserviência aos interesses de entes externos, lascando a economia e gerando o medo do humor do Imperador do Mundo. Como o Governo e nossas instituições têm resistido às investidas imorais, ficou difícil sustentar tais versões. Além da Alta Taxa de Juros, que é verdadeira, e serve, apenas, aos rentistas, inverteram os termos e culparam, como sempre, os mais fracos: agora, o perigo maior é a dívida das famílias, 82% delas endividadas. O culpado maior de tudo isso é o “Governo do Velhinho”, que “polarizou a política”, que “quebrou a indústria e o comércio”, que “protege os que não querem trabalhar”, que “aumentou a dívida pública” e, agora, mandou que as famílias se “endividassem” para quebrar os bancos, acabar com as Casas Bahia, com a Braskem e tantas outras que estão falindo ou entraram em recuperação extra ou judicial porque erraram nos seus modelos de negócio ou fizeram tantas maldades que não aguentaram as consequências. Vale lembrar os tempos do Getúlio, que tiraram e depois tiveram que recolocar o seu retrato na parede das repartições públicas, quando eleito pelo povo. Os tempos são outros, mas você vai escolher: ou deixa o Quadro do Velhinho na Parede ou pendura no seu lugar, o quadro de um néscio qualquer, sem plano factível de governo, sem experiência, com sangue de vampiro nas veias, fazendo tudo que o seu mestre mandar!
*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.

