Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
A semana foi perigosa, mas divertida para os que encaram os fatos como coisas de um parquinho de diversões, digamos assim, uma Disneylândia do diversionismo. Semana das Convenções Partidárias, quando os pré-candidatos são aceitos como Candidatos, representantes de seus Partidos Políticos, sendo deles oriundos ou coligados. Investidos desse novo status, apresentam-se aos eleitores com propostas constantes dos planos de governo, compromissos com os segmentos sociais que representam e, ainda, promessas mirabolantes que angariam possíveis votos dos eleitores. E o voto é sagrado, a urna o seu sacrário e os resultados do pleito consagram os eleitos em representantes do povo para que em seu nome governem o Estado Brasileiro. Muito bonito para ser verdade, dizem o incrédulos! 9Pior seria se não acontecesse, periodicamente, esse momento esperado e várias vezes negados nas Ditaduras. Tem algumas surpresas, jogo sujo, rasteiras vergonhosas, traições tidas como impossíveis? Tem sim! Todas essas coisas fazem parte dos jogos dos humanos, das nossas idiossincrasias. No entanto, no “intelectualês” desejável, o que nem sempre vemos com clareza são coisas que brotam da nossa formação social e histórica. É aí que mora a verdade, nem sempre vista a olho nu. Nesses momentos, parece haver um jogo jogado na superfície, que deve seguir a lei e a civilidade e, sub-repticiamente, joga-se outro jogo; jocoso, mas impertinente, que se refletirá no exercício dos mandatos obtidos pelo voto com a repetição dos mesmos procedimentos de segregação dos poderosos, que os desconectam dos representados. Esse é o lado ruim da nossa política. Para ser superado, exige conhecimento, avaliação constante, consciência de classe e uma compreensão da cidadania e das desigualdades sociais. É o que nos ensina Lilia Moritz Schwarcz, em Sobre o Autoritarismo Brasileiro (São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 211): “a sociedade deste país de longa convivência com a escravidão e com grandes domínios rurais privados preservaria, mesmo na contemporaneidade, uma espécie de ritual nacional de oposição às distâncias sociais, de gênero, de religião, de raça, quando na prática e no cotidiano as reitera”. Olhando bem, escutando bem e refletindo bem, dá para constatar o que a historiadora social nos apresenta para reflexão.
O “nós contra eles” faz parte daquilo que os estudiosos chamam de “retórica da intolerância”, onde o outro não pode ser aceito como outro, como sujeito com quem se dialoga, discute racionalmente, confronta programas e consistência de propostas. O outro, assim, é o objeto da vingança, do extermínio, já no ponto de partida, independente do que a ele a humanidade já concedeu: o direito ao julgamento justo e, também, o direito à vida. O “nós vamos matar quem roubar”, consta de um dos programas de governo de um candidato. Isto é o “Bukelismo” que nos faltava, já que as “Megaprisões”, folcloricamente cercadas por Onças e Jacarés, então prometidas por um outro candidato, seriam abrigo dos sobreviventes esperando a morte; o que é coadjuvado por outro, que não somente propala, mas tem como marca de bom gestor o lema de “Bandido aqui não se cria, some ou morre”. De outro candidato, não se ouve uma só palavra que não seja um vitupério. Entregando o voto aos donos de tais promessas, nos restará o festival de GLO’s, de Estados de Emergência, de desobediência às leis. Enfim, um Estado de Terror! Todas as propostas agradam aos que não querem propostas: as elites, que tem as suas e sabem o que querem. Por meios próprios de mando, decidem, sozinhas, os rumos dos eleitos, sejam eles quem forem, depois.
Não sendo bastante a pregação de nossos “intolerantes”, abre-se, ainda, um cenário preocupante com as interferências americanas no processo eleitoral brasileiro, vindas no bojo das investidas da extrema direita buscando a conquista de territórios. De todo, não são inusitadas, os tempos é que são outros, mas as motivações são as mesmas: o desejo do imperialismo de assenhorar-se do que melhor lhe parece no mundo. E os sabujos do mundo inteiro, que incensam o ódio contra os interesses dos seus próprios países, são seus coadjuvantes de estimação e suas propostas obscenas para o público interno não passam de “cortinas de fumaça” do entreguismo!
*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.

