Por Grace Soares*
Quando um estudante cola grau, a Universidade inteira cola grau junto com ele. É sempre um acontecimento de grande emoção. Hoje, o Curso de Jornalismo celebra de maneira muito particular a conquista da acadêmica Anne Karoline Menezes, que encerra sua jornada junto à nossa Unidade, a FIC/UFAM, mas cuja passagem nos marca profundamente.
Durante cerimônia reservada ocorrida na manhã desta quinta-feira (11/06), no Auditório rio Solimões, Campus Norte da UFAM, Anne proporcionou a gestores, a docentes e a uma plateia diversa e incrivelmente singular, uma verdadeira aula de inclusão e de coletivismo.
Protagonizou um momento que nos tornou cúmplices de seu evidente e competente compromisso em fazer valer o papel do jornalismo, mas nos abriu os olhos para o pouco que caminhamos na prática com ações afirmativas e iniciativas ligadas à inclusão social.
Anne possui domínio completo da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), fez questão que a cerimônia tivesse intérpretes (um homem e uma mulher) e majestosamente incluiu aqueles e aquelas que fizeram parte das histórias que ela colecionou na Universidade e que contribuíram para sua formação humana e profissional.
Anne não tem familiares surdos. Não teve colegas de turma, no jornalismo, surdas. Por que aprender LIBRAS? Ela nos contou que quando determinou para si viver tudo o que a Universidade poderia ofertar, sob diferentes perspectivas, buscou conhecer outros Cursos, arriscou se relacionar com novos grupos. Inevitavelmente deparou-se com uma Universidade diversa, com certeza, mas percebeu que há muito a ser feito pela frente para torná-la inclusiva. Não havia outro caminho para resolver as suas inquietações a não ser estudar… LIBRAS.
É incômodo estar entre pessoas e não compreendê-las. Era assim que ela se sentia nas rodas de conversas de estudantes surdos na Universidade. Mas Anne é a maioria; dentro e fora da UFAM integra o grupo majoritário de homens e mulheres que enxergam e escutam plenamente e se comunicam utilizando todos os sentidos.
Na comunicação atingir a maioria não é suficiente. Parece óbvio, mas pouco dessa máxima sai do papel pra prática. Em meus longos anos de vivência no ensino superior (público e privado) e no mercado de trabalho, foi a primeira vez que vi uma jornalista (em formação ou formada) preocupada com as limitações do seu código. Anne decidiu eliminar barreiras de comunicação.
Em um cenário atual onde as guerras parecem não ter fim, a cultura da desinformação segue desenfreada e as pessoas cada vez mais preocupadas com si mesmas, essa jovem, em uma rápida passagem pelo nosso Curso, nos ensina sobre o valor das pessoas, de todas elas.
*Coordenadora do Curso de Jornalismo da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (FIC-UFAM).



