CRÔNICAS DO COTIDIANO: “A Cigana Leu o Meu Destino” e o Prêmio do TSE

Por Walmir de Albuquerque Barbosa*

Apesar de combater o “Jornalismo de Bastidor”, invenção cabulosa que esconde maus propósitos e vícios do atual jornalismo brasileiro, confesso que não resisti e aderi, pelo menos uma vez, e aceitei a informações de minhas fontes, de que se cogita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a criação de uma comissão de “Alto Nível” para escolher, dentre as sugestões enviadas ao Tribunal, o nome do prêmio a ser concedido aos Institutos e Empresas de Pesquisa de Opinião que mais se aproximarem dos resultados finais do Pleito Eleitoral deste Ano. A ideia do prêmio foi anunciada pelo Presidente da Corte, preocupado com as possíveis discrepâncias entre os resultados e os desejos do pesquisados na corrida eleitoral e a moralidade, a veracidade dos dados e a fidedignidade dos números ou percentuais revelados. Tudo isso, num só pacote, ele nominou como “acurácia eleitoral”, coisa que soa bem antiga e lembra as “Eleições à Bico de Pena” da República Velha. Quando os humoristas ameaçam fazer greve porque autoridades públicas estão invadindo os seus espaços de criação e trabalho, incrédulos, dizem que isso é coisa de “palhaços”, mimimi de despeitados e vagabundos. Mas, essa invasão acontece mesmo com uma constância admirável. As pesquisas de opinião para medir o momento político, testar nomes, avaliar governos, programas e intenções de voto, todos nós sabemos: não são pesquisas estritamente científicas, na estreita definição de termos. São produtos elaborados a partir de modelos empíricos (escolha e formatação da amostragem e questões), estruturados com bases estatísticas (base matemática e racional), fornecendo, assim, um retrato do momento, das tendências de opiniões, de acordo com o que se deseja apurar; servem para orquestrar as disputas políticas, promover discussões e acender paixões no eleitorado. Às vezes, medem com certa “acurácia” (nunca com precisão absoluta) e, na maioria das vezes, seus resultados ajudam a formar opinião, mas, de modo algum, decidem o voto em candidatos, sobretudo onde os corpos sociais não estão tão convictos ideologicamente ou engajadados em lutas partidárias para alcançar o poder político. Portanto, Premiar o quê, Senhor Ministro? O amanhã dos candidatos já estava descrito na letra do Samba Enredo da Escola de Samba União da Ilha do Governador, “Amanhã”, de 1978, de autoria de Didi e João Sérgio (letra revista e ampliada e interpretada por Simone, 1983). O voto é secreto, a pesquisa de opinão é um instrumento público de avaliação momentânea da corrida eleitoral, sujeita a muitos sobressaltos e variações, até àquelas inconfessáveis e, quando tal, é tarefa dos Tribunais descobri-las e puni-las com a Lei. Acurácia em política eleitoral é “agulha em palheiro”! Tem coisas mais sérias com as quais se preocupar, sobretudo, com os ataques à lisura das eleições, encetadas pelos “bocas sujas”.

Nas Eleições de 1946, o candidato preferido era o Brigadeiro Eduardo Gomes (UDN) contra o Marechal Eurico Gaspar Dutra (PSD), gago, e dizem, sem traquejo político. Em comício no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o Brigadeiro bradou convicto de sua vitória, menosprezando os adversários: “não necessito dos votos dessa malta de desocupados que apoia o ditador para eleger-me Presidente da República”. Hugo Borghi, líder Getulista, depois de articular as garantias junto à Dutra de que não exilaria Getúlio, mudou e divulgou pelas rádios as palavras de Eduardo Gomes: trocou “malta de desocupados”, por “marmiteiros”. “Marmiteiros” é como eram chamados os trabalhadores que levavam de casa o almoço em marmitas e adoravam o “Pai dos Pobres”, como era conhecido o velho Getúlio Vargas. Isso virou o mote dos marqueteiros de Dutra e deu a ele uma vitória arrasadora. Mais tarde, Juracy Magalhães, Embaixador do Brasil nos EUA e Ministro da Justiça de Castelo Branco, celebrizou-se por seu viralatismo ao propalar em alto e bom som: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”, antecipou-se em 60 anos, ao que acaba de dizer Marco Rubio, Secretário de Estado Americano, em sua postagem justificando o Tarifaço de 25% cravado pelo Governo Trump aos produtos Brasileiros e repostada na nota do Candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, concordando inteiramente com ele. O candidato já estava em decaída nas pesquisas de opinião, tendo acurácia ou não; desta vez, parece que a Cigana acaba de ler o seu destino, mas não sabenos, em definitivo, como será o seu “amanhã”!

*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.