Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
Santa Edwiges, também conhecida como Edwiges da Silésia, de origem germânica, viveu 69 anos e faleceu em 1243, na Polônia. Foi canonizada Santa em 26 de março de 1267 e, até hoje, é muito querida entre os seus devotos. O seu carisma decorre da extrema bondade: usar a sua riqueza para ajudar os necessitados, presos por dívida e construir hospitais, escolas e igrejas. No imaginário popular dos cristãos e até mesmo dos descrentes necessitados, rivaliza com São Judas Tadeu, Santa Rita de Cássia, Santo Expedito e Santo Antônio de Pádua, conhecidos como Santos das Causas Impossíveis. Sabe-se, até pelo nome, o mais ligeiro de todos no atendimento é Santo Expedito. São Santos muito venerados em todo o Brasil, certamente por que entregam o que se lhes pede.
O infortúnio dos encalacrados em dívidas não pode ser debitado ao abandono pelos Santos, mas às reincidências, as recidivas e mesmo aos abusos da paciência alheia, até mesmo dos Santos, como soe ser o do Devedor Contumaz, tipificado em lei. Outros, no entanto, se não for com o beneplácito dos Santos, nada conseguem, pois não reúnem as credenciais necessárias para pleitear o status de devedor por não serem bancarizados. Os mais velhos lembram dos tradicionais modos de dívida: o “pendura” e a dívida do “borrador”, aquela que o taberneiro anotava no caderno e o pagamento era feito conforme os acertos informais das relações entre credor e o devedor. Essas formas de crédito eram muito usadas no comércio das pequenas cidades, bairros e comunidade mais pobres, onde todos se conheciam. Esse tipo de dívida, mesmo não sendo paga depois dos cinco anos prescritos pelo Código Civil, não deixa de existir, mas só pode ser cobrada com muito cuidado, não pode ser na base da ameaça, só com muita conversa, renegociação, descontos e até perdão de parte do principal. Com todo respeito que tenho pelos Santos, quem não sabe cobrar, não vende fiado; se dispuser de recursos, prefira doar, é mais prático e esquece mais rápido. Quem sabe se não foi por não saber cobrar dos devedores que Santa Edwiges chegou à santificação? Não posso opinar sobre essa questão, não tenho riquezas nem carisma e ser santo nunca foi minha meta; mas sei que o meu lugar é num patamar muito mais baixo, consciente que sou dos meus pecados.
Mas, não se pode brigar com a realidade. No mundo do capitalismo financeiro, a dívida tem um papel fundamental: quem não deve não tem! E o “devo, não nego, pago quando puder” é parte do processo de capitalização e das relações usuais no mercado para fazer o dinheiro real e virtual rolarem. À pauta dos direitos civis, na sociedade de consumo, se acrescenta o direito ao crédito. Você só é um cidadão pleno se o seu celular tocar várias vezes oferecendo um crédito “pré-aprovado”. Alguns até esnobam, outros ficam contentes e não precisarão recorrer aos anúncios pendurados nos postes da iluminação pública oferecendo empréstimos em quantias que vão de 1 a 5 mil reais, com desembolso imediato e pagáveis em 10 prestações no cartão de crédito. Tudo parece muito fácil e chegamos a problemas que se tornam incontornáveis para os endividados, para os Santos Protetores e credores. Um problema individual passa a ser coletivo e macroeconômico, caindo no colo do Estado e, mais especificamente, no colo do Governo de plantão, porque Capitalismo Bom só existe se tiver um Estado que lhe dê garantias; garantias de que vai se responsabilizar pelos inadimplentes privados, aqueles que os bancos, as fintechs e as maquininhas de fazer débito em cartão de crédito incentivam. A verdade, agora, é que temos um grande problema a resolver: 80 milhões de brasileiros endividados. Quem endividou-se para investir em bens duráveis, fez patrimônio e seguiu a regra do capitalismo como risco permanente; quem usou a dívida para atender às necessidades básicas do viver, precisa de alento. A desgraça é que a inadimplência dos endividados e a resolução de seus problemas pelo Estado é o faz-me rir dos poderosos, que não precisam de Santos Protetores e sim de um Estado submisso. Precisam, apenas, das suas poderosas máquinas de fazer pressão, aquelas que fabricam ilusão, que semeiam ódio quando as coisas não são de seu contento, que fazem lobby para ter sempre quem lhes dê garantias de que suas notas sonantes voltarão robustecidas aos seus cofres e que seus lucros estarão sempre acima de qualquer suspeita!
*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.



