Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
Invenção é diferente de origem ou causa de um determinado fato, acontecimento ou fenômeno ocorridos na natureza ou decorrentes das ações humanas com repercussão na vida material e na vida societária. Os povos, por sua vez, são inventivos na construção de suas aparências e dos seus interesses e aí pode-se falar que a invenção interessa a todos para apresentar-se aos demais e disputar hegemonias. Nesse sentido, a invenção é parte da política e da história, com papel social relevante, tanto para o bem quanto para o mal. O fato, o acontecimento e o fenômeno existem em si mesmos, mas a invenção não precisa, necessariamente, dessa base material para dizer-se ou tornar-se o novo ou revelado como tal. Edward W. Said, na sua obra “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente”, descreve como o Oriente (este mesmo Oriente que está sendo bombardeado e está bombardeando numa guerra imprudente sob a provocação de Estados Unidos da América e de Israel) é uma invenção do Ocidente para ter nele o seu oponente cultural e sobre ele exercer a sua dominação política e econômica. Assim sendo, a invenção do Orientalismo deu aos europeus o poder de serem diferentes, já que não lhes era possível ser cultural e historicamente superiores ao outro, uma inversão simbólica da realidade. De outro modo, a invenção também aparece a serviço da justificação da “Tradição”, que tanto nos encanta, quando pensamos nos valores, nas práticas, e no refinamento civilizatório que orna o modelo, o espelho no qual se desejam ver os que não a possuem e se acham subalternos. Nem percebemos que tantas coisas que vemos e temos como tradição foram inventadas em algum tempo e até mesmo dispensaram o tempo para se erigirem como Tradicionais, como nos fala Eric Hobsbaum e Terence Ranger em “Invenção das Tradições”. E dizem eles: “por tradição inventada entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado” (Editora Nova Fronteira/Saraiva de Bolso, 2012, p. 12). Nesse mote, justifico o título e o fundamento teórico para apreciar a “Polarização”, essa palavra doce na tradição brasileira, como uma “tradição inventada” por nossas elites para exercerem o seu modo de dominação e perpetuação das desigualdades, com todas as implicações de subalternidade dela decorrentes.
Quando a selvageria política se escora na chamada Polarização entre Esquerda e Direita, o toque ideológico aparece disseminado pelos incumbentes ou agentes das elites econômica e política do país com o apoio da mídia, da intelectualidade engajada, dos partidos políticos de direita e extrema direita, das igrejas, do setor privado da economia, como discurso que busca reduzir tudo a um fenômeno sócio político da ocasião, do novo, que a sociedade brasileira está a viver porque foi capturada pela Esquerda (no caso atual), que levará a Nação ao caos econômico, moral e religioso se não for destruída. Repete-se aí um mantra da política de ocasião que o Brasil viveu com outros nomes, com outras tradições de mando, o que tornam esse discurso factível, com facilidade de espalhamento no conjunto da sociedade. Ele tem suas origens em outras polarizações que, sem esse nome, se firmaram na leitura eurocêntrica na qual beberam nossos políticos e intelectuais para esconder nossas diversidades com o nome de “Dicotomias”: o Brasil da Costa x Brasil da Silva (Selva); o Brasil Urbano x Brasil Rural; a Casa Grande x Senzala; o Doutor x Pé Rapado; o Brasil dos Senhores x Brasil dos Escravos; o Brasil das Patroas x Brasil das Empregadas Domésticas; o Brasil do Elevador Social x Brasil do Elevador de Serviço; o Brasil dos que mandam x Brasil dos que obedecem. Nós estudamos isso, nos acostumamos a ver o Brasil dividido, polarizado, tendo sempre um outro para humilhar, diminuir e desprezar, um lado bom e outro ruim. Portanto, é fácil usar ideologicamente a tradicional polarização na vã esperança de que a salvação virá pelo meio, pelos “bons”, espertos, sensatos e equilibrados “homens de bem”, quando na verdade o que se quer mesmo é a dominação, venha com o nome que for mais palatável, que enfeite o marketing da ilusão para prevalecer o estigma da diferença, da desumanidade! É isso que tem que mudar!
*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.


