Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
É impossível passar batido sobre os acontecimentos que abalam o mundo, mesmo sabendo que outros, aqui pertinho de nós, nos afundam em um mar de lama, clamam por esclarecimentos e, até mesmo, justiça verdadeira. O momento, no entanto, é de angústia e nos convida a uma reflexão sobre nossa Humanidade. Impossível não sentir asco ante as monstruosidades que se descortinam frente aos nossos olhos mediadas e recortadas na televisão. A Guerra contra o Irã é um show de horrores, mas naturalizada como espetáculo pirotécnico. No Brasil, as máfias disputam o poder a tapa e a violência contra as mulheres é um ultraje. Dela não escapam nem mesmo as meninas crianças e adolescentes. Não é o mal do século, como se falava do ópio e outras drogas no século XIX, da liberação sexual do século XX, não se trata disso, é o resultado explícito de uma desumanidade universal: se a vida de um ser humano, que deveria ser querido e jamais molestado perto de mim não vale mais nada, por que devo importar-me com outros seres humanos que estão distantes? Não são meus parentes, não são da minha cor, não são da minha raça, não são da minha religião, não falam a minha língua, não são da minha laia! Essa dessemelhança nos deixa confortáveis para naturalizar os acontecimentos e até justificá-los como necessários à depuração do mundo, como alardeou o editorial do jornal “O Estado de São Paulo” (Brasil, 01/03/2026), chegando até a chocar alguns de seus leitores: “Ninguém vai chorar pelo Irã”. Que manchete mais desastrosa, que mal exemplo de comiseração, que punhalada no jornalismo, transformado em barbárie? Os humanos que estão por trás do tal jornal não choram por vidas perdidas no Irã, nem tampouco por vidas de pobres brasileiros, o que fica bem claro, quando passamos os olhos nas linhas escritas de suas edições, sempre prestimosas na defesa dos interesses das elites. Se não é possível chorar pelo Irã, recorrendo à lógica do Estadão, parecerá ridículo chorar pelos feminicídios praticados no nosso país, pela garota de 17 estuprada por quatro homens estúpidos, ocorrido no Rio de Janeiro e manchete nesse entremeio das notícias sobre a Guerra. Sem sentido seria, também, chorar pelos mortos em Gaza pelo Estado de Israel em conluio com o Imperialismo Americano, só porque os Palestinos não importam aos interesses dos que querem fazer uma limpeza étnica no Oriente Médio. Quando se trata de vida, não está em questão o perto ou longe, é a Vida!
Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo (SP: Companhia das Letras, 1989), convida-nos a revisitar o passado para identificar as origens dos Totalitarismos. Embora não seja a única causa, a sua origem não se descola dos Imperialismos. Foi assim com o Imperialismo Interno europeu , agrupando povos germânicos e dando origem à Alemanha e na unificação de povos eslavos no grande Império Russo; e no Imperialismo Expandido, que criou o Colonialismo Europeu atingindo vários continentes. Ambos são responsáveis pelas grandes guerras do século XX e desdobramentos ocorridos na Guerra Fria, que se estendem até a década de 1980 entre URSS e EUA. Os tempos são outros, mas as características se nos apresentam semelhantes. A Burguesia do começo do século XX, que cobrava proteção do Estado todo poderoso e bélico para seus negócios coloniais, foi substituída, atualmente, pela Elite Milhardária Globalizada que sequestrou o Estado Imperial Bélico e colocou-o a serviço de seus interesses num mundo sem limites definidos, senão pela força do capital financeiro que se move uníssono, provocando fissuras onde mais lhe sejam convenientes. E a força desse novo Imperialismo ancora-se no Totalitarismo que desumaniza os povos, independente de suas diversidades e origens, para que sirvam não a Imperativos Categóricos éticos e morais, mas aos interesses da reprodução do capital financeiro em alta escala. O Totalitarismo é dotado de Razão Imperial, que não deixa espaço para o choro dos que se identifiquem com o Humano, seja no plano interpessoal ou coletivo. Esteja ele próximo ou longe de nós mesmos! Sejam Palestinos, Judeus, Iranianos, Americanos mortos ou que morrerão nas guerras, sejam mulheres e meninas, bem ao nosso lado, carentes de justiça, de compaixão, de humanidade! Os Totalitarismos, assim como Nazismo, implicam caracterização mais contundente face aos avanços que podem fazer nos tempos hodiernos!
*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.

