Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
Morreu Benedito Ruy Barbosa (17/04/1931-07/07/2026), jornalista, escritor, dramaturgo dedicado às novelas, publicitário e grande retratista da cultura brasileira. Tinha obsessão pela Reforma Agrária e militou por ela o quanto pode. Na impossibilidade de sua concretude, idealizou-a no mundo da teledramaturgia brasileira recorrendo ao Realismo Fantástico: recurso estético, usado tanto na literatura, quanto nas artes visuais e cênicas, onde componentes míticos e surreais misturam-se ao realismo da cotidianidade, criando narrativas verossímeis. O Brasil continuará a exigir uma releitura de suas obras, contudo o que ficou mesmo, infelizmente, foi essa impossibilidade de superação da miséria, do coronelismo, da prepotência e da violência política e real nas relações dos poderosos com os mais humildes. Fez parte de uma geração que formatou um modo de pensar, incorporar e representar a cultura brasileira modernista, desafiadora dos modelos clássicos eurocêntricos. Esteve sempre bem acompanhado por tantos outros como Dias Gomes, Fernanda Montenegro, Ruth de Souza, Mário Lago e outros na dramaturgia e que, com eles, tomou a missão de levar para a TV o cotidiano do povo brasileiro e, na medida do possível, mesmo atravessados pela Ditadura e por momentos de desesperança nas liberdades públicas, fizeram o letramento do público que vivenciou a Televisão como o meio mais poderoso na criação da cultura de massa no país, evitando, assim, que fosse totalmente tragada pela mediocridade das narrativas que visavam, apenas, o mundanismo desbragado, que fomentava a alienação e os fetiches da sociedade de consumo.
A geração de intelectuais que vivenciou a Ditadura Militar, sobretudo no pós 68, desprezava a produção televisiva, não só pelo seu caráter doutrinário de direita entregando o país ao Imperialismo Americano, mas, também, por um conflito de interesses com o que estava a acontecer no mundo e a TV não mostrava (por censura do regime ou por zelo com seus negócios), onde os jovens vinham revolucionando os costumes (até mesmo nos EUA), contestando o sistema político, o machismo, o colonialismo e a guerra fria. Mesmo com a censura, o movimento cultural brasileiro conseguiu produzir o que ainda temos de mais sofisticado e inovador na fixação de um padrão cultural nacional. Isso é uma contradição em termos: censura X produção cultural inovadora. E, o mais absurdo, dentro dos mesmos veículos que investiam no “lixo cultural” para delírio das massas que eles viam como “incultas”. A cultura visual da TV contou a seu favor com a nossa Tradição de Cultura Oral (tão bem defendida por Ariano Suassuna) e com o alto índice de analfabetismo que grassava no país; e, entre os alfabetizados, índices que ainda nos envergonham de analfabetismo funcional. A TV proporcionou, assim, a revelação do Brasil Profundo para os que não o conheciam e para os que o viviam, uma oportunidade de serem retratados, mesmo com suas vozes tolhidas pelos esparadrapos postos pelo autoritarismo em todas as bocas. É por isso que nos espanta, de vez em quando, nos necrológios, que um Benedito Ruy Barbosa, Mario Lago e outros pudessem ter existido dentro da Rede Globo, apoiadora de primeira hora da Ditadura, como todas as outras coirmãs. A Roberto Marinho nunca interessou a ficha partidária de militância dos “comunistas” que acolheu. Ao mesmo tempo, foi visionário ao pensar que seus talentos poderiam render-lhe dinheiro e telespectadores aos montões, porque o que está na alma do povo como desejo não se dissipa com facilidade. Ele sabia que estava mentindo, mas não enganando a si mesmo, ou fazendo proselitismo. Tanto é que, do alto da sua autoridade, quando interpelado pelo General Juracy Magalhães, Ministro da Justiça (1965-1966) com uma relação de jornalistas, atores, diretores e autores de conteúdo das Organizações Globo que deveriam ser entregues aos porões do poder, não titubeou em responder: “Ministro, os senhores cuidam dos seus comunistas, que dos meus comunistas cuido eu”. Isso não era coragem, era poder, como até hoje têm a Globo para pautar a vida política brasileira. Não mais tem a mesma força de antes, divide esse poder com outras redes e negócios igualmente comprometidos com as elites brasileiras. Entretanto, sempre bom saber o que ela está aprontando, pois todo cuidado é pouco!
*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.



