CRÔNICAS DO COTIDIANO: Eu não “Enfeito o Maracá”

Por Walmir de Albuquerque Barbosa*

A expressão é antiga, mas o que ela quer dizer corresponde ao que vem sendo usado, quotidianamente, no jornalismo e nos comentários que correm pela internet: “adornar”, fulano ou sicrana adornou o evento, na boca dos influencers; Deputado tal adornou os fatos para marcar posição, na boca dos comentaristas políticos de plantão. “Adornar”, portanto, é a palavra-chiclete do momento. Eu não adorno os fatos, mesmo que sejam cruéis, talvez em respeito aos velhos princípios do jornalismo, que nos faziam pensar em imparcialidade, o suficiente para acreditar na fidedignidade de nossas narrativas, espelhos da verdade sobre o acontecido. Como tudo não passava de ilusão, o jornalismo de ontem, tanto quanto o de hoje, sofrem o mal dos tempos que lhes são contemporâneos. Não descobri isso por acaso, mas procurando refletir sobre nossas fraquezas e tenho a impressão que os fatos são mais fortes que as nossas convicções e as nossas capacidades de entendê-los em sua inteireza. Quem, em santa consciência, pode falar com segurança, sobre o que se passa na política brasileira atualmente? Sebastião Nery, o cronista impecável de mais de meio século do Folclore Político Nacional, em “Ninguém Me Contou Eu Vi: de Getúlio a Dilma” (S.Paulo: Geração Editorial, 2014) desmonta a charada. Com ele, intuí que tudo não passa do que ele chama de “udenice”, isto é, coisas inventadas pela UDN, partido político que teve como cacique Carlos Lacerda, e muitos outros como coadjuvantes da maldade. Tanto ontem quanto hoje, a Direita e a Extrema Direita, juntas, emplacam suas “verdades” para confundir. Hoje, o “Foro de São Paulo” é o carro chefe de sua Teoria da Conspiração, ao lado das denúncias de Violência e Corrupção, embora esteja atolada nelas até o pescoço, mas “adornadas com pitadas de Olavismo” (pensamento de Olavo de Carvalho, guru do direitismo), porém o modelo de produção de iniquidades é o mesmo, aprimoram-se os métodos e os meios, mas a intenção maldosa continua.

No capítulo “Juscelino, o sem medo”, demonstra como a UDN urdiu a mentira que tornou-se a sina de Juscelino Kubitschek (JK) para enfraquecer e impedir a sua vitória à Presidência da Republica em 1955: a falsa riqueza, e colar nele, para sempre, a pecha de corrupto. Plantou na Revista Time, que o candidato à Presidente que, eleito, Construiu Brasília e rompeu com o FMI, era a “sétima fortuna do mundo”. E, para derrubá-lo, espalhou isso como uma verdade absoluta nos jornais, rádios, nas TV nascentes e nos comícios. Tudo por medo do Juscelino, “sua pedra de tropeço”, depois do sucesso em encurralar o Getúlio e “colocar”, em sua mão, a arma com a qual se suicidou, para não aceitar o golpe em nome dos interesses do imperialismo. Contra JK, os mesmos aliados (empresariado estrangeiro, empresariado nacional entreguista, saudosos fascistas e mercadores da fé), tendo como retaguarda as Forças Armadas, eivadas de viciados nas tramas golpistas da República, chegaram a 1964. O Udenismo continua no DNA da direita, quieta e piedosa, esperando o serviço sujo da extrema direita, de parte da imprensa e de outros meios.

Tudo parece muito com o hoje. Por isso, não é dever de jornalista passar a mão na cabeça do líder do Governo, que não convence com suas explicações; nem deixar de investigar o porque dos pulinhos nervosos na cadeira da Presidência do Congresso e suas pautas-bomba; nem tampouco fazer vista grossa aos propósitos misóginos e às brigas familiares; muito menos, aceitar a versão de que o STF é o vilão. As forças do Imperialismo estão atentas e agindo sobre nós e os outros, e arregimentando todos os vira-latas que encontra pelo caminho, para defender seus interesses. E, manter o Brasil longe dos centros de poder é a armadilha principal para torná-lo submisso, adiar o fim das desigualdades sociais e garantir o sossego das nossas elites. Faz bem pouco que a Comissão da Verdade chegou à conclusão de que JK foi morto pela Ditadura, abrindo caminho para que ela pudesse seguir por mais tempo. O perseguido talvez não fosse a perfeição em pessoa, mas não se comprovou, até hoje, que tenha sido a “sétima fortuna do mundo”. O que se faz hoje na Direita Brasileira continua sendo o que se fez: repetir as mesmas “udenices”, com adornos pós-modernos, ilusionismos toscos que enfeitam os maracás dos que querem o poder pelo poder!

*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.