Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
Começo com Pierre Bourdieu (1930-2002), sociólogo e pensador francês, na Aula Inaugural proferida no Collège de France, em 23/04/82: “diante da servidão do trabalho ou da violência dos campos de concentração, o ‘é assim’, que, segundo Hegel podemos pronunciar diante das montanhas, reveste-se do valor de uma cumplicidade criminosa. Na medida em que nada é mais neutro, quando se trata do mundo social…” (Lições da Aula. S.Paulo: Ática, 1994, p.17-18). Com essas palavras, Bourdieu nos coloca diante de três questões: quem observar e buscar entender a sociedade não pode ficar calado diante das iniquidades, tem que ter um lado; que existe uma diferença fundamental entre Natureza, que, segundo Hegel, “é”, e a sociedade, uma construção humana; e, por último, a sociedade é movediça, se transforma, e pode até melhorar em função das suas utopias. Para ser bem exemplar: quando o Sr. Luciano Huck, produtor e apresentador midiático, dono de uma audiência invejável em todo o país, diz que falava “em privado” – o que só piora o pedido de desculpas –, usando dados falsos para justificar o seu argumento contrário ao Bolsa Família, sua fala “reveste-se do valor de uma cumplicidade criminosa”. Cumplicidade com quem? Com os que manipulam o poder! E quem são Eles? São os que habitam e compõem a Elite Política e Econômica na sociedade capitalista brasileira. E porque isso dói? Por que sua fala se refere, exatamente, ao público do qual ele se alimenta, manipula e tira o seu prestígio; e usa os meios de comunicação para manipular a massa fiel, tendo como objetivo a permanência dela nas mesmas condições sociais de vida.
Os movimentos e partidos conservadores apostam na mobilidade social que lhes convém e a extrema direita se esforça para impedir a mudança apontando a degenerescência dos costumes e, para impedi-la, se necessário, ameaça o uso da força e a desconstrução dos direitos políticos e sociais. Exagero? Não! Tem sido este o jogo! Há um turbilhão de problemas que movem a tudo, pois a Burguesia precisa reciclar os processos produtivos para a sua sobrevivência e o que parecia sólido “se desmancha no ar”, parodiando o Manifesto Comunista de Marx e Engels, mas que combina, também, com a Sociedade Líquida de Zygmunt Bauman (1925-2017). Coisas da história, que se repetem como farsa numa sociedade onde a divisão clássica das Classes Sociais foi atravessada por um amplo Lúmpen, seja ele dos segmentos que almejam a saída das condições miseráveis de vida, seja da fração de classe depauperada, que as conveniências do marketing e da Economia de Mercado convencionaram nominar de Classes Médias (segundo a renda), que almejam ascensão social e negam qualquer vínculo com a Classe Trabalhadora. Resta, portanto, aplicar a Teoria das Elites, que busca explicar o modus operandi da Classe Dirigente. Entendendo Elite, não no sentido vulgar de segmento qualitativo superior, mas aquele cunhado por Gaetano Mosca (1858-1941) e assumido por Vilfredo Pareto (1848–1923), que trata a desigualdade como elemento inerente à sociedade de governantes e governados e nela, as Elites Políticas, Econômicas e Militares e Religiosas disputam a primazia no controle do poder. Nesse processo de disputa cooptam as forças sociais possíveis, inclusive a Elite Intelectual (intelligentsia), formada por promotores de cultura, cientistas, pensadores, economistas, jornalistas que se engajam ou não em projetos diversos. As consequências dessas disputas nem sempre leva a bons resultados. Quando descambam para o autoritarismo nos leva ao precipício, mas elas não cessam, pois todos querem mandar. Muitos só percebem esses movimentos, no caso brasileiro, porque a mídia, ao simplificar e tomar partido, atribui tudo às Eleições. Não é bem assim! É a Roda Viva, de Chico Buarque: Roda mundo, roda-gigante/Rodamoinho, roda pião/ O tempo rodou num instante/ Nas voltas do meu coração”. Portanto, a cumplicidade criminosa está: na fala dos ventríloquos da burguesia; na presença daqueles senhores iracundos representando “As Classes Produtivas”, no Gabinete do Presidente do Congresso Nacional, para tentar frear a mudança na Jornada de Trabalho; e, usando o púlpito do Salão do Senado para, em entrevista, fazer ameaças ao povo: “se perdermos, repassaremos os custos aos consumidores”! Cena patética de bandidagem, digna do século XIX!
*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.


