CRÔNICAS DO COTIDIANO: Sossegue o seu Coração

Por Walmir de Albuquerque Barbosa*

Minha Irmã, hoje, completa 90 anos de vida. Nasceu às margens do Rio Cicantá ou Cicantã, afluente do Rio Apocuitáua, na Bacia Fluvial do Rio Preto de Maués, que deságua no Grande Rio Amazonas. Cicantá, nome poético, de origem indígena, homenageia uma espécie vegetal endêmica nas redondezas do rio – Protium heptaphyllum ou Protium spruceanum, da família das Burseraceae, nome científico – produtora de uma resina transparente que, ao secar, cristaliza e vira pedra transparente e perfumada. É utilizada nos rituais indígenas, na cura medicinal e na artesania regional para calafetar os barcos que navegam os rios da Amazônia. Cada um tem o irmão que merece e a minha irmã é uma Pedra Perfumada, como soe ser os irmãos dos irmãos da grande maioria dos brasileiros. Como todos eles, trabalhou muito e venceu na vida: aos dezoito, formada professora rural, lecionou numa escola multisseriada em Autaz Mirim (AM), lá onde agora descobriram terras raras de interesse do imperialismo econômico (antes de raras, vale lembrar, terras indígenas); migrou para Manaus, onde trabalhou como estenodatilógrafa e taquigrafou falas de ilustres vereadores da Cidade de Manaus. Migrou para o Rio de Janeiro, experimentou o sufoco dos Trens da Central do Brasil rumo ao trabalho e usou as Cantareiras da Baía de Guanabara para estudar, à noite, na  UFF, em Niterói. Terminou sua jornada laboral na Petromisa (subsidiária da Petrobrás), empresa extinta sem dó nem piedade por Collor de Mello, na primeira tentativa de privatização da Estatal. Atravessou o país do Norte ao Sudeste desafiando a Geografia e, por sua origem social e como força de trabalho, seguiu o caminho afirmativo da mulher brasileira. Pela longevidade, continua vendo os acontecimentos que marcaram e marcam a República.

Gaston Bachelard, em “A intuição do Instante”, (Campinas: Ed. Versus, p.17-18) nos diz: “o tempo é uma realidade encerrada no instante e suspensa entre dois nadas. O tempo poderá sem dúvida renascer, mas primeiro terá de morrer. Não poderá transportar seu ser de um instante para outro, a fim de fazer dele uma duração”. Cada instante, tem que ser vivido e o mais que pode, além disso, é virar memória. Nós, como flechas, de corpo e alma, atravessamos o tempo como amálgamas de todos os instantes, nenhum igual ao outro. Por isso, mesmo sendo irmãos, somos diferentes. E isso não é um problema, é próprio da vida e do mundo. O problema é quando os irmãos são irmãos por interesse, interesses escusos, esses não conseguem ser Transparentes porque, a cada instante vivido, tentam  apropriar-se do outro como objeto de cupidez. Os fatos com os quais nos deparamos hoje, são instantes de perversão humana que subvertem o sentido do que é ser Irmão e, por instantes, o termo é usado para enganar, para mentir, para o cometimento de crimes, até mesmo quando se dizem Irmãos de Fé, usurpando a consciência alheia. Irmão, tanto quanto Amigo, “é coisa pra se guardar/Debaixo de sete chaves/ Dentro do coração” (M. Nascimento e F. Brant)!    

A Cordialidade dos brasileiros nem sempre foi bem explicada. Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), autor de Raízes do Brasil (1936), formulou o conceito de “Homem Cordial” para caracterizar a Identidade do Brasileiro. O que era para definir nossas características negativas, que nos impedem de progredir em impessoalidade, na seriedade nos compromissos,  na negação da aparência como critério de julgamento, na capacidade em separar interesses pessoais e familiares dos critérios consensuais ou legais, justos e equânimes, à revelia do Sociólogo e autor da tese, prevaleceu a ideia errada de que ser Cordial é ser “Bonzinho”, agir mais com o Coração do que com a Razão na resolução das diferenças. Tal compreensão,  consagrou a proximidade desbragada, a falta de seriedade na hora certa e no descompromisso com a verdade e a seriedade nas relações interpessoais e coletivas, e até com o Estado, sobretudo para aqueles que têm poder e fazem dele uma extensão de suas relações familiares. Nesse sentido, o termo Irmão passou a ser usado até por parceiros em situação perigosa. A cordialidade positiva, no entanto, poderá dar sossego aos nossos corações, sempre que nossas convicções e práticas, aquelas que não ferem a ética, profundamente humanas e respeitosas, nos tornarem iguais e verdadeiramente Irmãos Universais!

*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.