Por Luís Castro*
A primeira rede de observatórios e de prevenção ao feminicídio da região norte do Brasil foi lançada na sexta-feira (6), às vésperas do Dia Internacional da Mulher (8), no Instituto Leônidas e Maria Leone (ILMD/Fiocruz Amazônia), localizado no bairro Adrianópolis, zona centro-sul de Manaus.
Intitulada “Vigifeminicídio”, a estratégia de inteligência epidemiológica reúne articulação entre pesquisa científica, comunicação e vigilância digital através do monitoramento sistemático de dados, além da atuação multiprofissional em várias frentes, com o intuito de fortalecer o enfrentamento à violência de gênero e formular novas políticas públicas.
O lançamento ocorreu durante o Seminário Amazônico sobre Vigilância Inteligente do Feminicídio, promovido pelo ILMD/Fiocruz Amazônia, que será o espaço físico do Vigifeminicídio e contará com o apoio dos observatórios presentes nas capitais Boa Vista (RR), Manaus (AM), Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC) na região norte, além do monitoramento presente no Rio de Janeiro (RJ), na região sudeste.
O epidemiologista da Fiocruz Amazônia e coordenador da Vigifeminicídio, Jesem Orellana, explicou que o espaço será usado como um servidor de armazenamento sigiloso de informações coletadas pela rede de observatórios.

Epidemiologista e coordenador da rede Vigifemicídios Jesem Orellana. Foto: Luís Castro
“Nós temos muitos dados sensíveis que não podem ser compartilhados sob o risco de algum momento serem roubados por pessoas mal intencionadas. Além de armazenar, o espaço físico nos ajudará a operacionalizar parte deste trabalho. É mais uma conquista termos essa estrutura”, detalhou Orellana ao Portal da Ciência.
Ferramenta digital robustece prevenção à novos assassinatos
A plataforma Femibot, que integra a nova rede, se destaca por apresentar dados consolidados e atualizados em tempo real, como a participação de companheiros e ex-companheiros nos crimes e mapas de regiões com maior área de risco nas cinco capitais que compõem a Vigifeminicídio. O sistema já contabilizou mais de 100 assassinatos nas cinco metrópoles.
De acordo com dados da plataforma, Manaus contabilizou 30 feminicídios. Desses, 11 assassinatos ocorreram na zona leste da cidade, representando o maior quantitativo. Confira abaixo:

Mapa de risco indica quantidade de feminicídios por zona da cidade. Fonte: Femibot/Vigifeminicídio
As informações permitem prevenir os crimes e traçar estratégias mais eficazes no enfrentamento ao feminicídio, que em 2025, registrou um aumento de 4,7% em comparação ao ano anterior, de acordo com dados do Fórum Nacional de Segurança Pùblica (FBSP).
O comparativo entre os dados do Vigifeminicídio e do FBSP apontam uma discrepância quanto à frequência dos assassinatos no estado do Amazonas no período de 2021 a 2025. Em 2023, o observatório chegou a registrar 10 crimes a mais que o Fórum, o que evidencia a necessidade de dados mais concretos. Confira:

Infográfico aponta discrepância de dados. Fonte: Vigifeminicídio
A professora e pesquisadora da Universidade Federal do Acre (UFAC), Danuzia Rocha, esteve no Seminário e apresentou os desafios da problemática no estado, discutindo o impacto das mídias e serviços de saúde. Ao Portal da Ciência, ela relatou que a sua pesquisa aborda aspectos qualitativos do feminicídio.
“Ou seja, aspectos simbólicos e emocionais. Nós iremos entrevistar mulheres que sobreviveram às tentativas de feminicídio, assim como familiares enlutados de vítimas, para compreender a percepção dessas pessoas”, explicou Danuzia.
O Seminário Amazônico sobre Vigilância Inteligente do Feminicídio também contou com a presença de pesquisadores da Fiocruz e do Ministério da Saúde e da Justiça, que discutiram, através de apresentações, conferências e mesas redondas, diversos outros aspectos sobre esse tipo de violência letal. O evento é o primeiro de outros que serão promovidos pela rede Vigifeminicídio ao longo dos próximos meses.
*Repórter do Portal da Ciência, sob a supervisão do prof. Me. Gabriel Ferreira.

