Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
Bem menino, com os meus seis anos de idade, alfabetizado precocemente, minha Tia (carola convicta) matriculou-me nas aulas de catecismo da nossa Igreja Católica. Não era uma criança prodígio, mas as famílias orgulhavam-se de entregar à Igreja os seus filhos para a educação religiosa o mais cedo possível, na esperança, talvez, quem sabe, dali sair no futuro um padre ou uma freira, coisas muito prestigiosas na ascensão social naqueles tempos. A Professora Catequista se esforçava nas aulas explicando primeiro o Deus Tenebroso, que tem por paixão punir os que pecam; o que era pecado venial e pecado capital; a hierarquia da Igreja Católica, do Papa (naquela época o controverso PIO XII) ao pároco e sacerdotes coadjuvantes; e, muito importante, o papel das Freirinhas como símbolo de dedicação a Deus e à virgindade, enquanto nós, catecúmenos, ansiávamos pela hora do lanche, do jogo de bola e da brincadeira de “esconde-esconde” no quintal da Igreja. Lembro bem de uma das aulas em que fiquei chocado e à noite, disse-me minha mãe, tive até um pesadelo. O tema da aula foi sobre as ordens religiosas e a distinção entre elas e, em particular, as ordens de clausura. O problema foi quando chegou nesse ponto. Os anteriores, entendemos bem: voto de pobreza, dedicação aos doentes, à educação formal como as Freiras Doroteias da nossa cidade, mas a catequista deu ênfase a uma ordem religiosa chamada de Sepultas Vivas, freiras que renunciavam a tudo, a todas as coisas do mundo; entravam para o convento e não saiam mais, nem para o velório de parentes; perdiam todo o contato com o mundo exterior, produzindo a sua própria sobrevivência e o que é pior e razão do meu pesadelo, em idade avançada, cavavam no cemitério do convento a própria sepultura. Aquilo não saía da minha cabeça, imagens horrorosas de uma freirinha idosa, coitada, cavando a própria cova e, morta, as outras jogando a terra em cima de seu cadáver; um horror para uma criança tão pequena; coisa de cortar o coração! Mas a professora, apoteoticamente, finalizou dizendo que toda essa lida dava a elas a salvação, iam direto para o céu e não passavam nem pelo purgatório!
Mais tarde, já grande e moço, fui entender esse processo de purificação ao conhecer as coisas do mundo cotidiano, a dureza da vida do trabalho, os preconceitos e contemplar, mesmo de longe, os contrastes que se expressavam no que se convencionou chamar de mundo extravagante dos ricos, dos poderosos, com seus espaços de luxúria dedicados ao esmero com as coisas supérfluas e com os “prazeres da carne”, privilégio de alguns. Essa vivência capacitou-me a ver no “pecado das aulas de catecismo” uma similaridade com as minhas ideologias, onde essas coisas aparecem como expressão das diferenças de classe social historicamente situadas. A minha consciência política nascida, primeiramente, ao conhecer os Imperativos Categóricos Kantianos e os lampejos do Iluminismo, guiaram-me para águas mais profundas, onde é possível ver a relação entre Imperativos Categóricos e a Razão, a Razão Crítica e a Razão Instrumental: primeira fincada nos objetivos de uma humanidade que se reconhece como única e imperativamente humana e a outra, ajustada aos interesses das ideologias a serviço da hegemonia dos poderosos, que nada mais é que uma “ética especial”, cujo imperativo categórico acopla-se a interesses da dominação, da flexibilidade das diferenças às pautas morais que promovem o ganho de produção e a manutenção das desigualdades. E por que lembro de coisas tão evidentes e comezinhas neste momento?
Exposto ao noticiário da imprensa (que há muito esqueceu o seu código de ética instrumental), acompanho a proposta de um Código de Ética ou de Conduta para os membros do STF. Ao tornar público o seu desejo, o Presidente do Colegiado encontrou resistência de seus pares e, ao mesmo tempo, conquistou apoios de setores da sociedade, parte desse mundo extravagante empenhado em desmoralizar a Corte, vendo, somente, as condutas reprováveis de ministros quando estas afetam seus interesses. Foi aí que sonhei com as minhas aulas de catecismo e, prestes a um delírio, se não fosse acordado a tempo, via os Ministros do STF, com suas togas pretas, como os hábitos das Freiras, apartados do mundo, cavando suas próprias sepulturas. Felizmente acordei!
*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.
Foto: Reprodução – Antonio Augusto/STF

