Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
Não tenho o propósito de trazer ao texto uma exegese da obra de Nietzsche, embora seja ele o autor que inspira o título e parte de meus sentimentos ao tratar de um choro “demasiado humano”. Com todas as nossas deficiências morais, com todas as nossas incompletudes, aquelas todas que em tantos aforismos o filósofo tocou para escândalo de uma sociedade patriarcal, moralista ao extremo e hipócrita por convicção a qual se dirigia, ainda é possível chorar pelos que sofrem. Desde o momento em que a tragédia humana espalhou-se pelo mundo nestes últimos tempos de Imperialismo escancarado com assaltos bélicos de potências militares sobre países soberanos e mesmo sobre povos indefesos como os Palestinos de Gaza, fui tentado a manter perto de mim os pensadores que tratam da decadência dos valores democráticos que consagraram as liberdade civis, o direito à uma vida digna e à esperança de justiça. Voltei a consultá-los para entender os acontecimentos e o empobrecimento da análise dos que têm a responsabilidade com a formação de uma opinião pública decente, isto é, aquela que não incensa mitos, que estabelece limites para aleivosias da política e não tolera danos às conquistas sociais que nos tornaram sujeitos de direito.
Os conflitos internacionais não são mais pontuais. Caminhamos para uma nova forma de Imperialismo. Formalmente, parece semelhante ao que gerou as Grandes Guerras e a Guerra Fria do século passado, com novos atores. Entretanto, está carregado de elementos que tornam os perigos bem maiores: tecnologias de guerra a distância com resultados mais fatais; globalização imediata dos conflitos influindo na economia de todos os países, mesmo daqueles que não estão diretamente envolvidos; destruição de tratados internacionais e de garantias éticas nas responsabilidades da guerra; negação dos direitos inerentes à soberania dos povos e às garantias diplomáticas que os sustentavam; enfraquecimento ou desprezo dos organismos multilaterais para mediação de conflitos. O que nos impacta não é, somente, a audácia dos tiranos que se arvoram donos do mundo ou de pedaços dele, mas, sobretudo, a avaliação insana que divide os sujeitos dotados de razão universal a cederem em seus princípios, tomando partido em apoio a tais tiranos de inspiração nazistas. Incorporam do nazismo muitos elementos, no entanto, diferem dele, porque as formas de dominação imperialistas não se conformam mais ao Colonialismo Liberal ou ao Socialismo Revolucionário. Essa diferença se molda a partir de forças que emergem de dentro dos Países Libertos que, já internamente, não aceitam o outro e o veem como intruso e procuram culpá-lo pelos males econômicos e morais. Assim, os que atrapalham o novo modelo de dominação são indesejáveis e objeto de eliminação, caso não se sujeitem aos caprichos dos tiranos. E o pior, internamente, em cada país outrora soberano, grupos fortes buscam hegemonia de lambaios aliando-se aos que os oprimem. Isso tem nome, isso tem cara: extremismo de direita!
Esse parece ser o movimento a nos levar ao Totalitarismo. Está presente no jogo político interno dos países: no braço forte dos setores econômicos de cada um, aliados ao capitalismo financeiro globalizado; nas mídias, sejam nas convencionais ou nas que vêm ganhando força dentro dos nichos da internet, onde os algoritmos são de fácil manipulação à distância. O “Caso Brasileiro” não é único na América Latina e Caribenha. A diferença nossa se expressa pela força das instituições democráticas ainda em funcionamento e à resistência de setores mais organizados no espectro político e jurídico do país. Mas, os sinais estão aqui! Como nos diz Hannah Arendt, o primeiro passo para chegar ao Totalitarismo é “matar no homem a pessoa jurídica”. Quando economistas e a imprensa pregam “corte de gastos” com os pobres estão construindo o inimigo interno, pintando-o como preguiçoso, violento e atrasado. Buscam fazer a sociedade acreditar que os pobres devem ser jogados no “poço do esquecimento” (como foram esquecidos no passado) e, portanto, alvo mais fácil de extermínio nos bolsões de pobreza das periferias, virando estatística policial. Ali, os crimes dos agentes do Estado não mais existem! Portanto, não se deve chorar por eles, pois que a morte individual ou coletiva é igual ao “esmagamento de um mosquito”!
*Professor aposentado do curso de Jornalismo (Decom/FIC-Ufam), jornalista profissional.

